Suprindo as necessidades – com um clique
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agosto 7, 2009postado por Saul
Sobre o trilho de trem ela observa a paisagem e sons que aquele cenário emana. Calma. Simone está calma. Pensa em como é boa àquela sensação, talvez seja o momento, ou porque ali tem tudo que almejava. Solidão. Completa solidão, só interrompida por ruído e tremor crescentes. O ruído remete a sua infância. Passava três ansiosos meses esperando por ele. Ao acordar escutava o ruído crescendo, assim como sua ansiedade, corria em direção a estação, a qual residia próxima, e aguardava vagão por vagão. Com olhos atentos – tão atentos que observavam todas as pessoas e suas expressões, dando uma história pra cada uma delas – para não perder nenhum momento que poderia olhar para ele. Seu pai era viajante. Regressava a cada três meses, permanecia em casa duas semanas depois iniciava mais uma jornada. Simone decorou todos os trejeitos de seu pai, quando estava com saudades ela fechava os olhos e desenhava na escuridão todos os movimentos dele, o jeito exagerado de dar risada, a pressa em comer e o olhar de carinho com um sorriso maroto que era o que mais gostava de recordar e desenhar em sua mente.
Agora ali sentindo novamente saudades de seu pai – percebendo a solidão, já não queria mais ficar só –, saudade de todos. Será que eles também estavam sentindo saudades dela. Seu marido, filhos e netos, seus funcionários, tratados como se pertencessem à família, todas as pessoas próximas. O tremor foi aumentando e a contagiando de alguma forma inexplicável. Corpo mexendo-se involuntariamente, jogando pra fora todos os temores da vida, preenchendo com uma felicidade imensa. Ela estava liberta de qualquer compromisso e obrigação, sempre quis fugir de tudo, mas adiou para fazer as obrigações impostas por todos, agora era livre. Ruído e tremores intensos. Ela não quis abandonar a liberdade e não se moveu. Em seu rosto manifestou um sorriso sincero.



