É, amigo, seu CEP vai mudar.
agosto 17, 2010As janelas são os olhos das realidades – umas mais, outras menos
agosto 19, 2010postado por Murilo, o esporádico.
Não sabia se iria morrer em algumas horas ou em cinqüenta anos, mas decidiu que viveria aquele dia como se fosse o último. Estava saturado após trinta e nove anos de uma vida medíocre e insípida. Na verdade, tivera algum tipo de diversão durante sua juventude, mas há tempos não vivenciava grandes emoções.
Naquele dia aproveitou para testar seus limites no trabalho. Quando ninguém olhava, roubou meio pacote de papel sulfite do escritório. Tomou, ainda, dezessete copinhos de café durante uma mesma manhã, sem se importar com a empresa e tampouco com sua saúde. Ainda não saciado, acessou um site pornográfico no computador em que trabalhava, e assistiu um vídeo inteiro sem se preocupar em esconder a página.
Saiu para almoçar e já decidiu não voltar à tarde. Abordou um pipoqueiro no centro, mas não pediu pipoca, e sim um pacotinho cheio de bacon, e aquele foi o seu almoço. Impetuoso como estava, resolveu não pagar a prestação de seu apartamento e, como um inadimplente nato, nem mesmo a conta de luz.
No caminho para casa decidiu romper com as represálias e tabus morais. Aplicou cantadas pedreiras em quatro mulheres na rua. Em uma delas, a que mais rebolava sua enorme bunda, deu um ruidoso e abastado tapa no traseiro, saindo correndo depois. No ápice de sua adrenalina, surfou no ônibus biarticulado e curtiu o perigo de cada curva e cada tubo. Tubo de parada, não de água.
Decidiu se libertar das coerções que o reprimiam e se livrou de algumas flatulências em pleno elevador, mesmo com mais pessoas lá dentro. Mais tarde, naquele mesmo dia, se masturbou com a porta do banheiro destrancada, mesmo com a sua família em casa, sentindo o risco de ser flagrado a qualquer momento.
Abriu seu vinho chileno, que há mais de dois anos guardava para alguma ocasião especial. Aquele era, afinal, o suposto último dia de sua vida, para fazer tudo que nunca antes fizera, de experimentar novas aventuras e sensações. Na verdade, um derradeiro dia começava como se já estivesse acabado. Era como se você já não estivesse mais ali, pois vivia sob a consumidora certeza de que no dia seguinte não estaria.
Embriagou-se ao beber a garrafa inteira, enquanto assistia dois episódios seguidos de um seriado televisivo que sempre quisera ver. Adormeceu, extenuado e extasiado por um dia de tantas emoções. No dia seguinte, a ressaca seria forte, mais do que de costume.




