Vícios variados com uma mesma função
março 14, 2011Banquete de noivado
março 28, 2011postado por Murilo, o raro.
O velho tocava seu acordeão rotineiramente para as multidões que ali passavam. No entanto, a maioria dos transeuntes jamais parava para escutar as suas melodias. O homem era como mais um elemento do mobiliário urbano. Sempre estava lá, e por isso as pessoas se acostumavam.
Eu caminhava para o meu trabalho quando, em meu usual trajeto, passei pela praça onde ficava o velho gaiteiro, em um dos pontos de ônibus. Contaram-me, certa vez, que em um lago de João Pessoa há um saxofonista que todo santo dia entra num pequeno barco e toca seu instrumento na hora do pôr do sol. Imagino eu que aquela situação por si só seja recompensadora. Tocar sob o crepúsculo, compondo a trilha sonora de uma bela paisagem, e ainda receber cotidianos aplausos de turistas de diversos lugares. Mas que graça deveria ter tocar em pleno centro de Curitiba, com espectadores tão atenciosos quanto pombos de praça?
Naquele dia, no entanto, havia no ponto uma bela menina, que segurava um cigarro aceso na mão e contemplava o gaiteiro atentamente. Quando ele terminou seu baião, a garota graciosamente colocou o cigarro entre os lábios e aplaudiu o músico com fervor. Bateu palmas como se estivesse diante do próprio Luiz Gonzaga. Aquilo me surpreendeu instantaneamente.
A menina não parecia esperar pelo ônibus. Não parecia bêbada, drogada ou tampouco uma turista encantada pelo gaiteiro como se ele fosse uma nova atração. Foi tão espontânea e original, que eu tive dúvidas se ela era perfeita, ou se simplesmente se encaixara perfeitamente nos buracos dos meus olhos.
O velho murmurou um singelo “obrigado”, como se essa palavra estivesse entalada em sua garganta há tempos. Aquele aplauso valia muito mais do que as parcas esmolas que recebia cotidianamente. Foi como um inebriante solo musical. Um oásis de gentileza e sossego, em meio ao caos urbano.
Tive vontade de bater palmas. Não para o gaiteiro. Para a garota. Mas acovardei-me. Eu não era como ela. Eu aplaudiria se vários outros o fizessem , jamais sozinho. Acho que não a merecia. Saí dali e caminhei distraído para meu trabalho. No dia seguinte o velho estaria ali com seu acordeão, mas a menina não.
Acho melhor mudar meu trajeto, pensei.





1 Comment
rui barbosa feelings!