Festa (parte 2)
outubro 26, 2011Passado recortado a partir de um presente – já colado
novembro 3, 2011Postado por Murilo, o lacônico.
Foi diagnosticado com um crítico caso de câncer na garganta. Porém, não bebia muito, e raramente fumava. Apenas um médico conseguiu descobrir a causa da doença, o psiquiatra.
A verdade é que ao longo dos anos tantas coisas permaneceram entaladas em sua garganta que acabaram por formar um tumor. Palavras que deviam ter saído, mas ali ficaram apodrecendo. Respostas a zombeteiros, insultos a inimigos, verdades a mulheres. Tudo incrustado em sua estreita goela.
Já dizia o provérbio chinês que três coisas não voltam atrás: a flecha lançada, a palavra dita e a oportunidade perdida. Misturando as três, lhe parecia também bem verdade que perder a oportunidade de dizer o que deveria ser dito às vezes era como guardar uma flecha enfiada no peito. Ou na garganta.
O padecido invejava, agora ainda mais, os capazes de vomitar palavras sem hesitar, pois mesmo que sujassem tudo ao redor, preservavam limpos seus interiores. Cuspiam o bagaço e engoliam o suco, os lazarentos, para depois falar doce.
Mas ele agora não falava doce e nem macio. Em seu último aniversário, discursou rouco, quase gutural. Alguns parentes rezavam inutilmente a São Brás. Faltou-lhe um caderno, alguém murmurou. Mas era tarde, e sua voz jazia velha e fraca, sucumbindo ao câncer dos calados.





3 Comments
Nuossa pia…
Cabreiro!
Agora eu entendo por que te chamam de A LENDA! Hahaha! CABEEEIRO² 🙂
Muito boa a dinâmica do texto