Na Palma da Mão
março 26, 2012Possíveis plenitudes
abril 2, 2012postado por Murilo.
– Porra, querida, isso de novo?
– Isso o quê? – pergunta ela, totosinha e encalorada arrumando algo na cozinha.
– Você andando de calcinha pela casa.
– Ué, qual é o problema? Tô em casa. Se não andar de calcinha aqui, vou andar onde?
– Em lugar nenhum, oras.
Ela larga uns talheres na gaveta e coloca as mãos na cintura.
– Eu pensava que você gostava. Mas tudo bem, vou por um cinto de castidade então.
– Porra, não é isso. Claro que eu gosto. O problema são essas janelas – diz ele apontando para a vidraça escancarada do apartamento do sexto andar. Ao redor daquele edifício havia vários outros, inclusive uns bem mais altos.
– Meu bem, você é muito paranóico. Acha mesmo que alguém dos outros prédios vai ficar olhando aqui dentro a essa hora? – pergunta ela, enquanto se aproxima da janela. O vento vem refrescar a sua pele seminua e o marido vem correndo para tirar ela dali.
– Eu não acho. Eu tenho certeza! Olha aquele prédio ali, tem um apartamento onde toda hora a luz acende. E de madrugada!
– Deixa eu ver…
– Não não, fique longe da janela.
Ela mostra a língua e caminha para o quarto.
– Aliás, fique longe de todas as janelas – diz ele, apressado atrás.
– Impossível. Num apartamento minúsculo desse, você mal passa pela porta de entrada e já está perto de uma janela.
– Puta merda. Então coloque uma camisola, ou feche as cortinas, sei lá. Olha ali – diz ele olhando pela janela do quarto – deve estar cheio de filho da puta olhando para cá. Pena que não dá pra enxergar. Mas eu sei que eles estão lá …
– Num calor desse não dá pra fechar essas persianas, e minha única camisola está para lavar. Você bem que podia me comprar uma nova, né? – diz ela ao deitar na cama – Ou instalar um ar-condicionado aqui.
– … devem ter até um binóculo, os filhos da puta.
– Ai, cala a boca, amor. Deixa de ser paranóico. Deita aqui, deita. Vem tirar minha calcinha que você tanto odeia.
– Vou. Mas só depois de fechar essa cortina bem fechada.
Fecha persianas, abre pernas, e faz o que tinha que fazer. Depois levanta, volta para a janela, debruça-se para fora e grita para o edifício na frente:
– VOCÊS PODEM FICAR OLHANDO, MAS QUEM COME SOU EU!
Em um apartamento do prédio em frente, uma mamãe levanta irritada. Algum babaca deu um berro para o mundo e acabou de acordar seu bebê. O papai havia levantado na última vez e agora era vez dela. Ela caminha até o quarto do filho, acende a luz e o pega no colo. Enquanto embala o filhote para ninar, vê, em meio aos seus brinquedos, um objeto incomum.
Não sabia que seu marido havia comprado um binóculo para o bebê.





1 Comment
Ficou bem legal. Não sei se é um conto. Acho que ficou mais pra crônica. De qualquer maneira, é um ótimo entretenimento.