
Gravidade
abril 19, 2012Receita
abril 27, 2012postado por Rafaé.
H. teria sido um homem muito feliz e realizado, não fosse sua insaciável necessidade de domínio sobre os universos que o absorviam. Dia após dia a vida lhe doía a ponto de enxerga-la escorrendo pelos próprios olhos, diante do sempre sujo espelho quebrado em seu banheiro escuro.
Teria conseguido finalmente ser feliz com M., que sempre havia sido, aparentemente, tão descuidada com seus amores.
Teria finalmente aprendido a dançar as danças da moda que tanto lhe deixavam só, à beira das noites.
Teria, por fim, conseguido explicar a M. seu incomensurável tamanho. Explicação que sempre seria dada amanhã. Desses amanhãs que sempre serão o dia seguinte, sem nunca se tornar hoje. Sempre ali; jamais aqui.
H. teria sido tantos Hs., não fosse sua incapacidade de se compreender fora dos universos que os absorveram um dia. Jamais admitiu existir sem aquela vida que lhe escorria diariamente pelo rosto. Sem dançar com seu amor, o amanhã jamais se justificaria.
Até aquela tão inocente manhã de segunda-feira, daquelas que o sol engana os primeiros que olham pela janela e enxergam o gramado amarelado pelos primeiros raios nem tão quentes assim.
A dor da vida superou o medo da navalha. O amanhã continua ali, eminente. Aquela segunda-feira foi seu último hoje.
H. teve uma vida amorosa repleta de realizações que sempre lhe trouxeram satisfação. Mas satisfação jamais foi alimento para uma alma sincera, e M. sabe disso.
Aquela tão inocente manhã de segunda-feira conduziu H. até seus limites. Já M. vive a satisfação de um mundo onde tudo o que não for amor é desperdício. Um mundo onde existe a eternidade. E na eternidade não há futuro. É sempre presente.



