Delírios de um daltônico
abril 15, 2012Amanhã é sempre logo ali
abril 23, 2012postado por Murilo
Joguei aquela atrevida pela janela. Foi tão rápido e frenético que não tive tempo de pensar, tamanho foi meu susto com a sua revelação. Após defenestrá-la, ainda ofegante, mergulhei em minhas reminiscências. Buscava justificar meu ato. Buscava me abster de qualquer arrependimento. Enquanto despia-me de minha cólera, lembrava-me dela.
Há tantos anos ela já estava lá em casa. Sempre presente, sempre vigilante. Meu marido não gostava muito dela, e passou a ignorá-la com o tempo. De fato devo concordar que ela tinha uma personalidade um tanto controladora, e era sincera demais às vezes. Fria e calculista, não fazia rodeios para mostrar-nos a verdade que muitas vezes estava na frente de nossos olhos. Algumas vezes, contudo, me trouxe alegrias, com seus singelos, mas significativos, elogios. Aprendi a conviver com ela, afinal. Mas isso foi até aquela noite, quando ela foi longe demais. Assustou-me e aborreceu-me.
Agora eu me olhava no espelho, assombrada. Como havia me tornado assim, sem perceber? Que horror! E agora o que seria de mim? Será que as pessoas ficariam sabendo? Já conseguia imaginar seus olhares zombeteiros espreitando nas ruas. Mas não, não podia deixar que isso acontecesse. Aquele escândalo teria que ser abafado. Eu ficaria trancada em casa pelo tempo que fosse preciso. Usaria roupas pretas. Ficaria de jejum. Mas antes precisava limpar o estrago.
Desci as escadas do prédio, cercada por um silêncio fúnebre, necessário naquele momento. A adrenalina ainda me ocupava, encorajando-me a fazer o que devia ser feito. Segurava firmemente um saco preto na mão. O usual cumprimento ao porteiro foi tenso como um trítono no ar. Talvez ele houvesse percebido alguma coisa diferente, não sei. Respirei fundo, encolhi a barriga e segui meu caminho. Lá fora, contornei o edifício até o local abaixo de minha janela. Ofegava como a obesa que descobri ser. Esgueirava-me pela escuridão, fugia das luzes denunciadoras. Ali no chão estava ela, despedaçada. Havia algo de irônico naquilo tudo: a gravidade, que antes dava sentido a sua existência, agora a havia destruído.
Embrulhei-a no saco e a deixei num lugar perto dali. Sequer me despedi, pois ainda me ressentia com sua denúncia – segredo agora enterrado. Minha consciência não pesava tanto quanto meu corpo. Mas ninguém saberia, agora que a balança estava morta.
Foto: Giovanni ‘jjjohn’ Orlando via Compfight cc





