Festa de despedida:
setembro 24, 2012derradeira
outubro 1, 2012da Carol
Meu nome, hoje, é Miranda. Surgi num ônibus lotado do entardecer. Fazia frio e não havia banco vago para me sentar, mas certamente eu estava melhor que a moça ao meu lado – vestia salto e saia, e senti por suas pernas oprimidas pela sociedade. Não me entendam mal, gosto muito de usar saia (quando não faz frio), mas não de salto alto. Também não gosto de usar brincos grandes, já que tocamos no assunto. Mas amanhã talvez eu só use argolas de metro.
Já fui várias mulheres e ainda hoje me desafio em novas experiências para descobrir qual delas sou eu, e do que realmente gosto. Precisei errar muitas vezes, de salto alto e longos brincos, para saber melhor aonde ir.
Sei também que gosto de engrossar os cílios e de tingir a boca de vermelho, mas ao mesmo tempo sinto um prazer imenso em esfregar os olhos em liberdade, e sugar o mundo e mordê-lo e beijá-lo sem encardir as bochechas. Por isso, às vezes, mantenho a cara limpa.
Que palavras me fazem bem eu sempre soube. Gosto do seu efeito quando se juntam, e algumas frases são realmente orgasmáticas. Ouvi Chico cantando a alguns metros de distância um verso que dizia assim: “Prometo te querer até o amor cair doente”. A canção parecia ser antiga no repertório, porque o público cantava junto. Eu não a conhecia. Tão linda que o mundo parou de girar. Chorei até ele se despedir.
Diariamente eu descubro algo novo sobre mim, e sempre que isso acontece eu renasço mais forte. O caminho a nós mesmos é tortuoso e nos traímos todo o tempo. Finjo não perceber que o trabalho no escritório de contabilidade me faz mal, me reprime a liberdade e tolha a expressão do que sinto. Das oito às dezoito, meu tamanho diminui, mas volto lá todos os dias. Mas o que fazer quando os escritórios contemplam a maior parte das oportunidades? O que fazer? E quando?
Ninguém sabe quem realmente é, ou não fariam coisas que não gostam de fazer por causa do salário no fim do mês ou do faturamento anual. Tanta tinta, tanto pincel, tantas frutas e cachoeiras, e nós pensando em dinheiro.
Ninguém se conhece o suficiente.





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