a disputa
dezembro 3, 2012
deprediação
dezembro 9, 2012por Rafael.
Um ano, dois meses e sete dias depois, voltei a ser picado por uma abelha. Não que eu seja um aficionado por datas e números, mas há coisas que nos marcam a uma profundidade maior do que a que desejaríamos.
Como quem vem de longe, convicta de que tem algo a dizer, a lembrar, a cobrar, ela veio e cravou seu ferrão em meu pescoço, pouco abaixo da orelha direita.
Da última vez havia sido no punho esquerdo, lembra?, naquele café, no parque, daquele café.
Lembro mais do susto que da dor. Não que não tenha doído, mas daquela tarde lembro mais da noite que vencia o dia, tingindo o horizonte com o mais-forte-alaranjado-do-mundo, as nuvens de um inominável-magenta, e o céu inteiro com milhares de tons entre o lilás e o preto que por fim tingiu tudo.
Lembro da dor que seu sorriso me causava, sabendo que sairia iluminando outros dias, me deixando em uma escuridão só minha.
Um sorriso que era uma metade insegurança e a outra tristeza, além de um quê de malícia, um sorriso que habitava não só os lábios, mas começava nos olhos, descendo calmamente pelo seu rosto e, por fim, equilibrava-se nos cantos da sua boca sem batom.
Aquele café, no parque daquele café, nunca mais existiu, e hoje eu sei que além do café havia você, e por isso o ferrão não me causava dor.
Nunca mais pude sorrir por um céu azul sem me convencer de que aquilo tudo é uma ilusão de ótica, que por trás do azul do céu, mesmo que o mais-bonito-azul-do-mundo, há uma eterna e silenciosa escuridão, dominante até o infinito.
Sempre que me convenço disso tenho vontade de gritar um grito que não me sai. É como o silêncio o engolisse por inteiro.
E agora, um ano, dois meses e sete dias depois, voltei a ser picado por uma abelha, com a mesma escuridão que nos abraça todas as noites, uma picada de abelha no pescoço, pouco abaixo da orelha direita. Uma picada que me causa uma dor maior que todas as sensações de uma vida. Uma dor que se faz valer pela ausência de algo maior ao alcance dos meus sentidos.
A partir de minha dor, reúno forças e lanço estas palavras no ar, um ano, dois meses e sete dias depois, buscando lhe atingir com meu ferrão, não para lhe causar a maior-dor-do-mundo, apenas para lembrar.





2 Comments
Excelente, garoto. Apaixonante, sempre…
grato, grato.