Soliloque
junho 10, 2013Ah, a vida
junho 17, 2013Rodrigo Daher
“O que eu estou fazendo no sofá!?” A casa já dorme. Cada coisa em seu lugar. Acordo com uma dor de cabeça inexplicável. “Mas não durmo no sofá desde a nossa última briga séria! Há 5 anos atrás!?” Lentamente me levo até a porta do quarto. Aberta. Melhor, semi-aberta. Um enorme coberta de inverno, dessas que se compram no Paraguai, cobre toda a extensão da pequena cama. Vejo os cabelos loiros dela caídos. “Não deveria ter sido assim.” Estou parado na porta. Respiro, respiro pesadamente. O gosto da minha última refeição: sopa. A dor. De cabeça, do corpo, da alma. Na lama. “Espere um pouco! Se sou eu aqui, de quem é aquele pé!?” Um choque percorre a espinha. Expande-se. “Não pode ser! Morri!” Morto? Como assim morto? Não tenho coragem de me aproximar de mim mesmo. Sem movimentos. Ela dorme como dormiu no primeiro dia de amor, quieta, uma estátua. Mas eu não. Sempre um tumulto. Nunca numa só posição. E agora, parado? “Não pode ser!” Caminho como ele, sobre as águas, sem sentir meus pés, o percurso de um drogado. “Mexa-se covarde!” Minhas mãos tocam o tecido grosseiro mas aconchegante.”Puxe!”
– Ei! O que você faz aqui!? Nós combinamos que você dormiria no sofá!
-Como assim combinamos!?
-Shhhh! Fale baixo, não quero que ela acorde. Você já causou muitos problemas na nossa vida.
-Causei problemas? E como assim na “nossa” vida? Ela é a minha mulher!
-Hahahahahahaha! Vejo que você está com aquela amnésia novamente…
-Amnésia? Do que está falando? Quem é você?
-Preste atenção, vou repetir nosso acordo mais uma vez: a vida normal é minha e a do sonhos é sua. Eu durmo na cama. Você no sofá. Simples assim.
-Você só pode estar de brincadeira, filho de uma puta!
-Eu já esperava isso de você, com aquela conversa fiada de que eu poderia ficar com o dia a dia e você correria atrás de explorar suas ideias… blahblahblah!
Minha cabeça dói. Quem é esse cara!? Minhas mãos já estão fechadas. “Vou resolver isso agora.”
-E nem pense em fazer qualquer besteira. Se ela acordar agora você já era.
-Já era!? Do que está falando? Seu miserável…
-Esqueceu como funciona o nosso mundo? Só enquanto ela dorme você pode existir e criar. E sou eu quem impede que ela perceba as suas loucuras. Idiota. Se qualquer coisa acontecer comigo… hahhahaha Você se fode junto!
Dói minha cabeça. Dói. “Eu a amo como sempre. Eu fujo como nunca.” Saio do quarto. Mas ainda estou lá. Volto pro sofá. Solitário. “Lugar de louco é aqui. E sozinho.”



