Enfracrescer
outubro 24, 2013Tetos não-familiares
outubro 31, 2013por Rafael
Seria mais um assalto. Coisa pouca. Manutenção da noite. Um celular, talvez um relógio, com sorte uns oitenta, cem reais na carteira (poucos carregam dinheiro hoje em dia), mas não.
Pai e filho vinham pela calçada vazia. Fui de encontro e avisei do que se tratava. Quanto mais objetivo, menor a chance de dar merda.
Ele tentou reagir. O desgraçado estava armado e não tive escolha. Seria ele ou eu. Atirei primeiro, na barriga.
Puxou o pequeno para trás de si, soltou a arma e caiu de joelhos, olhando nos meus olhos, sem dizer nada. Um olhar que misturava surpresa e medo.
O segundo atirei no rosto para arrancar aquele olhar e corri. Corri por cerca de vinte metros e voltei. Voltei e atirei na cabeça do pequeno, que chorava, que caiu sobre o peito do seu protetor. Atirei por compaixão. Não queria que aquele inocente crescesse sem um pai, como eu.
Perdi meu pai aos onze. De lá para cá a dor tomou várias formas e cores, sem jamais perder seu tamanho. Com o tempo aprendi que a dor é parte de mim, que não seria alguém além dela.
Uma criança quando perde o pai, perde um pouco do que seria. É como apagasse um pouco do futuro.
Somos, ou seríamos, sempre um tanto a partir de nossos pais. Seja por imitação, seja por negação.
Ainda hoje sinto meu coração de vidro, que trinca um pouco mais a cada lembrança daquela tarde escura. Meu pai veio, me beijou e disse que já voltava. Nada especial.
Fechou a porta e nunca mais voltou a abri-la.
Éramos eu e ele.
Eu fiquei.
Fiquei sem jamais saber como reinventar a vida. Sobrevivi das piores maneiras possíveis.
Envelheci uma vida inteira na tarde em que enterrei meu pai. Me sinto um velho sem memórias, sem nada além de dor para contar. Vida de bicho.
O mundo não precisa de outra pessoa assim. Seria injustiça deixar que aquele pequeno inocente se tornasse uma coisa dessas.
Hoje, 22 anos depois, ainda trago no rosto a cicatriz do último beijo do meu pai e, no fundo, sinto inveja daqueles dois, a duas quadras daqui, que misturam seus sangues, o mesmo sangue, sobre o peito-paterno-ainda-quente.




2 Comments
Doído de ler…
Porra!!! Pancada! Quer um abraço?????