A gente é esquisito e paga por isso
novembro 4, 2013A Queda
novembro 14, 2013Rafael
Andar a essas horas na rua é um quase-não-existir. Próximo à meia-noite, as ruas são um vazio que nos engole.
A uma hora dessas temos medo de encontrar, de dar de cara com alguém, ao dobrar uma esquina. Sensação lamentável a de ter medo de encontrar o outro, se deparar com o desconhecido.
Saudade dos tempos em que o medo que sentíamos era do vazio, do escuro, das coisas que não existem fora da nossa cabeça. Uma simples lâmpada acesa no final do corredor era o suficiente para garantir que as ameaças ficassem aprisionadas no longescuro.
Mas hoje não. São lâmpadas, infinitas delas acesas, iluminando meu caminho até em casa, tingindo de alaranjado todo um universo vazio que me preenche de angústia com a eminência do encontrar.
À noite não confiamos em ninguém. À noite somos todos suspeitos.
Cruzamos com desconhecidos olhando de lado, disfarçando um certo não-se-importar. Cinco passos à frente, uma olhada por cima do ombro para garantir que o estranho, o outro, vai mesmo se desfazer na noite profunda.
É quase engraçado pensar que posso gerar aquele frio na barriga de alguém que dá de cara comigo ao dobrar uma esquina despretensiosa. E pensar que durante o dia passo invisível por dez, cem, milhares de pessoas naquele mesmo dobrar-de-esquina. Sequer me perceberão.
São infinitas histórias que perambulam por aí. Encolhidas à noite, se esforçando ao máximo para não interagir com as demais, também retraídas, que correm escondidas até o conforto de sua solidão-lar, onde pretendem não encontrar ninguém, para mais uma noite apagar todas as luzes e sonhar com o que retraiu dentro de si o dia todo.



