Fogo amigo
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Às 2:42 da manhã H. dormia e sonhava com coisas que ainda levará anos para decifrar. A recorrente tortura de se deparar com um medo qualquer e tentar fugir em uma disparada que nunca acontece. Escorrega, derrapa, até que acorda ofegante e se acalma para voltar a dormir. Mas desta vez a tentativa-de-correr foi interrompida pelo vibrar de uma mensagem de texto em seu telefone celular. Era Mariana.
“Ta aí?”, como houvesse a possibilidade de uma resposta negativa.
“Oi. Agora sim. O que acontece?”
“Sonhei com tudo aquilo de volta”, Mariana também tinha suas recorrências em forma de sonhos.
“E como vc ta se sentindo?”, H. sempre colocou os sentimentos de Mariana à frente dos próprios.
“Não sei. Eh tudo tão estranho. Não sei separar o que eh realidade do que são símbolos. Representações”.
“Nossa vida é um eterno atribuir de significados, não?”, H. é objetivo ao acordar e poético ao adormecer.
“Pode ser. Talvez seja por isso que eu goste tanto de ouvir meu coração. Acho que todo mundo deveria ter um estetoscópio”, traduzia Mariana, sempre tendendo à poesia.
O que distanciava H. de Mariana durante o dia era a ânsia de ouvir os barulhos do universo, quando esquecemos de ouvir os nossos próprios sons. Do que somos. Dos nossos mundos. Era quase-sempre-um-em-cada-extremo.
“Tudo é sempre um tanto do que interpretamos. Nada é simplesmente o que é.”
“Por isso, vc é o mundo. ”, mandou novamente H., antes que Mariana respondesse.
Ela sorriu.
“Eu sou a falta de palavras, agora. E um sorriso quilométrico.”
Ele sorriu.
“Acho que ele acaba de passar por aqui.”
Sorriram juntos.
“De tanto estar, acabamos sendo”, já não importa quem escreveu.



