Luzes que Vagam
abril 22, 2014uma vez mais
abril 28, 2014por Jadson
Os estúdios estavam vazios naquela tarde. As equipes de Tv todas na rua, gravando em parques, em favelas, enquetes em praças, comportamento, compras, fofoca, o mundo e suas insignificâncias. Monitores de computador com tela apagada. Televisores gigantes presos às paredes, ligados em todos os canais abertos. Fresnéis pendurados no forro preto. A bancada de onde os apresentadores leem notícias no telepronter está no escuro.
Hoje é domingo, nenhum programa ao vivo vai ao ar. O desenho animado e os quadros gravados sustentam a audiência com braços fracos. Impedem que fique no traço e entretêm uma meia dúzia de pessoas que não vai ao parque, que não vai ao shopping, que não tem piscina, que não tem nada, apenas a caixa preta na sala de estar, tela chiada de quatorze polegadas em cima da cômoda de madeira mal vernizada. Apenas um computador está ligado dentro daquela redação à meia luz. O mundo ali dentro é outro. Não há ruas, não há dia ou noite, não há rastro humano, há tão somente um lampejo de realidade. Tudo se imagina.
O produtor solitário, o folguista que cuida da programação, que guarda as mesas de edição contra eventuais casos de pane, mais parece o artista da fome de Kafka. Seu definhar vagaroso é entretenimento. Sua imaginação barata, sua falta de criatividade é o que alimenta uns poucos olhos semicegos por uma catarata magnética. Não passa de um mercenário que ganha com as cenas tristes, com o Pica-Pau e suas caracterizações de demônio com charuto na boca, acendendo com o dedo. – Quantas crianças já não torraram o dedão da mão direita depois de assistir uma merda dessas, pensa o folguista.
Espreguiça-se na cadeira de couro preto enquanto bate-papo na internet com uma garota que, assim como ele, está imersa em um poço de tédio profundo. Mesmo o conhecendo somente por uma minúscula foto de perfil eletrônico, transaria a tarde toda só pra sentir o gosto de suor sexual, gosto que fica no ar por horas.
Ao redor do mundo existem pelo menos outros cinquenta mil casais fazendo a mesma coisa, exatamente naquele instante. Nutrem seus cérebros com expectativas, fantasiam coisas inacessíveis, prazeres confinados, masturbação biônica ao som de ‘Indo Silver Club’ dos robôs luso-franceses que ganharam o último Grammy Awards. Produção em massa, televisão para todos, sexo com gosto de puberdade. Os dedos só não pegam fogo nos teclados pretos, de signos brancos, por causa do ar-condicionado. Uns quinze graus, contra trinta e dois lá fora, debaixo do sol.
A garota enfim tira a roupa. Mostra os seios, coloca o notebook nos pés da cama e abre as pernas na direção da pequena webcam, na parte de cima do monitor. Enquanto ela massageia os lábios o folguista solitário acaricia com leveza o pau por cima da calça. Permanece incólume, seu ar de obviedade inibe qualquer chance de alguém pegá-lo em flagrante. Mais alguns minutos de sexo virtual e ele começa a ficar tenso, porém, decide não parar com aquilo, mesmo com a eminente chegada de outras pessoas. São quase seis horas, os editores devem estar a caminho. Vão preparar as reportagens do jornal de amanhã, que vai ao ar bem cedo. A tela é um mundo plástico onde nada penetra, apenas se espalha, se autocopia.




