
Fim de noite
agosto 25, 2014
Nevoeiro Maldito
setembro 4, 2014Já estávamos há duas horas naquela reunião de família, com lágrimas e raivas choradas, quando comecei a lembrar de um momento da minha infância. À princípio não entendi o porquê, e tive até um certo medo. Não queria associar esta situação àquela memória, um dos meus poucos momentos de infância genuína. Era uma noite de Natal, e estávamos na panificadora de uma das minhas tias, como fazíamos todo ano. Era meu último Natal como o caçula da família, e eu nem precisava saber disso pra aproveitar a festa e toda a atenção. Viver era simples e a felicidade não precisava de motivos para estar presente. Pouco antes da ceia, a tia me chamou até a cozinha e me entregou escondida uma fatia de seu bolo de cenoura. Eu adorava aquele bolo, e ainda mais por estar comendo escondido, antes de todo mundo. Ela sempre era assim, e tenho certeza que saberia o que dizer neste momento, enquanto a família chora por pequenices ressentidas. A tia saberia a hora de trazer um bolo quentinho, e seria a única que não estaria chorando. Ela nunca chorava aos sábados.
André Petrini
Foto: Lotus Carroll





