
No sereno
julho 31, 2014
Somos Milhões de Pequenas Fábricas
agosto 11, 2014Eu moro aqui desde que nasci, e adorava a nossa casa. Ela era pequenininha, mas meu pai dizia que só pra nós três já está bom. Antes tinha o Binho, né? Mas ele acabou caindo no buraco, e agora deve estar lá na China. O Maurício, ali da casa do lado, falou que ele já virou espetinho porque na China eles comem carne de gato. A minha mãe disse que é mentira, e eu nem tinha acreditado mesmo, porque o Binho não deixava ninguém chegar perto dele. Vai ver ele sumiu de novo, e aparece daqui uns dias com fome e o pêlo todo sujo, igual àquela vez. Eu queria mesmo é que ele voltasse, porque eu gosto de ficar sentado aqui na areia olhando pro mar junto com ele, ainda mais agora que ele está até aprendendo a não me arranhar. Tirando quando eu pego no rabo dele, daí não tem jeito. Mas o problema é que eu queria levar ele no Dia do Animal da escola, e agora não tenho mais nada. Talvez eu leve um peixe que meu pai trouxer do mar, mas eu queria mesmo o Binho.
O buraco? Ah, ele apareceu do nada. Eu acho que foi o Binho que cavou ele, porque ele estava sempre fuçando na areia. Daí o buraco foi aumentado, aumentando, aumentando, até ficar maior do que a casa. Fez um barulhão quando tudo aconteceu, deu pra ouvir de longe. Ainda bem que a gente tinha saído, senão ia estar todo mundo caindo até agora. Ou então a gente ia chegar naquela bola quente que tem no meio do planeta, sabe? Eu não lembro o nome, mas não fala pra profe Ana, tá? Ixi, vai aparecer na TV? Tomara que ela não veja! Não sei se ela tem TV em casa. Eu ouvi dizer que lá na cidade todas as casas têm uma TV, às vezes até duas! Mas aqui na vila só tem a do bar do Seu João, onde a gente se junta pra assistir aos jogos do Palmeiras.
Ah, foi triste né. Porque quando a gente chegou, tava todo mundo em volta, olhando pra ver o que tinha acontecido, e a casa já estava só pela metade. Só ficou a porta da entrada e o sofá da sala. Dá pra ver ele daqui, ó.
Como eu tô agora? Não sei. Eu queria minha casa, né? Queria poder ficar na rede brincando com o Binho, vendo minha mãe fazer artesanato com as mulheres, e sentindo o cheirinho do pirão na panela. Deu até fome. Antes eu reclamava que a rede tava rasgando ou que o pirão demorava pra ficar pronto, mas agora não tem mais nem a casa, nem a rede, nem o pirão. Só eu, a mãe, o pai e o barco. Às vezes a gente reclama que as coisas estão ruins, e nem percebe o quanto elas estão boas, né?





