
Ansiosa manhã
setembro 18, 2014
Carta a Hunter S. Thompson
outubro 2, 2014Trêmulo e irrequieto, olhava o tempo todo para os lados, esperando por ela. Entre todas as pessoas atravessando o salão, procurava seu brilho, sentia seu cheiro de longe. Sabia que ela estava lá, cada vez mais próxima. Se alguém ali estivesse prestando a menor atenção nele, teria visto lágrimas ansiosas em seu rosto aparado. Quando ela chegou à mesa, ele não se aguentava mais em si. Olhou longos segundos para ela. Esperou ficarem a sós sem falar nada, em um silêncio catedrático. Quando o garçom deu as costas, ele desabafou como quem dá último fôlego:
— Ah, meu amor, quanto tempo! Sei que eles têm feito de tudo pra gente não se ver mais, mas eu te prometo que não vou deixar isso acontecer. Quanta saudade. Agora sou teu. Todo teu. Larguei elas duas. Sinto sua falta. Como fiquei tão longe? Me desculpa, me desculpa! Deixa eu te ver, vem cá, chega aqui, cuidado aí. Ah, seu cheiro é tão bom.
Ele relou com dedos leves e um sorriso abriu em seu rosto. Estavam juntos novamente. As luzes do bar refletiam multicoloridas em sua face translúcida. Ele a levantou no ar, hesitou, tocou seus lábios, sentiu seu calor queimando a garganta. Sentia-se vivo.
— Mais uma!
— Já é a sexta, doutor Ricardo… Tem certeza?
Um telefone toca.
— Mãe, o pai quebrou tudo outra vez e depois saiu. Tá cheio de cacos no chão, acho que ele voltou a beber.
Texto de Rafael Budni





