
Segunda-feira
outubro 30, 2014
Entre fantasmas
novembro 10, 2014Em frente ao mar nos permitimos à egocêntrica-reflexão-palerma de que somos pequenos diante da imensidão do mundo. Engraçado como achamos o mar imenso mesmo estando ali, parados na areia, sem sequer imaginar o que existe além da linha do horizonte ou abaixo daquela vasta superfície tão passiva aos ventos.
O mar
muitas vezes
é só
o que vemos
Isso nos convence, nos mantém com os pés fincados na areia.
Assim sigo aqui, diante da imensidão fria e cinza e sei que em outros lugares esta mesma água é azul e verde e quente. É tudo sempre assim, depende de onde estamos e de como enxergamos.
É com a calma deste universo que busco meu passado, que é cinza, é verde, é azul, é lágrima é sorriso e até saudade.
Nossas vidas são sempre um tanto do que buscamos. Os dias de ontem não chegaram até aqui não por que não deram certo, mas por que existiram em si.
Uma onda se esparrama na areia para que outra possa quebrar em seguida.
Seria triste avaliar nossa vida assim, de que não atingimos o futuro devido a algum erro no presente. Tudo existe em seu próprio tempo.
Assim como seria extremamente difícil criar um pterodáctilo nos minúsculos apartamentos dos dias de hoje. Desculpa colocar esse dinossauro aqui, mas sempre quis escrever algo com ele. Um desejo de infância.
Descabido? Se sim, mais uma prova do quão imprudente pode ser espremer o passado no presente.
A angústia dos dias de hoje me pressiona com a sensação de que, se paro, o passado me alcança.
Por isso chego a estas palavras, aqui, nesta areia, onde tudo o que escrevo é apagado com a próxima onda. Sequer completo uma frase.
Tento fugir do passado e olhar para o futuro, enquanto a aurora ameaça levantar no horizonte.
É sempre dessa forma, querida, primeiro a claridade, depois o sol. E deve ser assim até o final dos nossos dias, inclusive depois. O que importa é desse jeito, perdura, jamais se torna passado. Assim como a noite, que se encolhe todas as manhãs para que o sol faça um novo dia, sempre.
O presente acaba para dar lugar ao futuro, ao novo. No passado ficam as coisas que tiveram seus tempos e que já não cabem nesses novos relógios.
Não há nada de errado com o que vira ontem, assim como a onda que vira mar. Mas sim com a nossa dificuldade em seguir e admitir que o que importa transforma a vida em um presente constante.
Até o horizonte, que nunca se deixa alcançar.
Rafael Antunes





