
Amigos, amigos, ppks à parte
novembro 27, 2014
Só
dezembro 1, 2014Não dava para saber o que ele escrevia. Depois que o barbudo esquizofrênico passou gritando, o escritor sentou naquele banco público. Sem nenhum apoio, segurou uma grande folha de papel que estava dobrada algumas vezes e escreveu nela. Se fosse aberta, a folha seria um grande cartaz. Ele escrevia nela sentindo dor. Seu rosto se contorcia em semblantes tristes.
Revisava atenciosamente cada linha escrita antes de iniciar uma nova. Algumas vezes gastava vários minutos na mesma frase. Pouco a pouco o papel era preenchido. Blocos bem divididos, mas de ordem indecifrável. Linhas retas de caligrafia quadrada.
Ninguém poderia separá-lo daquele papel.
Quem sabe ele fosse um poeta, mas era quase certo que era um maluco e escrevia a mesma frase copiosamente. Repetição labiríntica. Fixação notável à distância. Sofrimento com profundidade.
Sapatos marrons. Calça e jaqueta jeans. Barras e mangas dobradas. Pele parda, quase negra. O escritor do Passeio Público não tinha dentes. Seu cartaz era da rua. Sua caneta era de graça.
por Jadson





