
Centro
dezembro 6, 2014
Em Algum Jardim
dezembro 16, 2014Sinto o cheiro do café torrado e desperto do pequeno cochilo que tirei. As funcionárias da lanchonete chegam cedo ao aeroporto para garantir que o café esteja pronto para os primeiros passageiros do dia, e eu, que passei a noite em claro naquele banco duro, começo a sentir-me em casa novamente.
Foram poucas semanas longe, mas volto como se visse o mundo pela primeira vez. É bom estar de volta onde a vida pulsa mais bela. Eu vi o mundo de fora e ele não é tão bonito quanto aqui dentro. A primeira noite na Estação Espacial foi cheia de faltas, mas ao contrário do que imaginei, das faltas menos óbvias. Não me incomodava a ausência da gravidade, de perder a noção de cima e baixo, ou mesmo do banheiro exigir habilidades que eu nunca imaginei que precisaria. O que eu mais desejava era voltar a sentir o cheiro da minha morena. Eu deveria ter borrifado algumas gotas de seu perfume na foto que trouxe escondido. À noite eu esfregaria a foto no travesseiro e dormiria como se estivesse ao seu lado novamente. Um pacotinho selado seria suficiente para fazer aquele alento durar a viagem inteira.
Eu nem mesmo sabia o que estava fazendo lá. Para o jornal foi uma ótima ideia, mandar “o primeiro jornalista brasileiro a visitar o espaço”. Deveriam ter escolhido alguém com menos motivos para voltar para a cama dura puxando para o centro da Terra.
É claro que muita gente ficou feliz pela escolha, e acharam que seria bom pra mim. É fácil ficar feliz pelos outros, difícil é imaginar se a pessoa vai ficar feliz por ela mesma. Eu não estava feliz. Eu precisava voltar o quanto antes para escrever sobre as velhinhas da minha cidade, sobre os amores de adolescentes e as desventuras do litoral. Com tanto espaço vivo ao meu redor, não fazia sentido escrever sobre o vazio. Como eu poderia rabiscar sobre a noite estrelada, se meu amor não poderia olhar para a lua comigo? Eu nunca poderia dizer que os olhos dela ficavam lindos mesmo sob o capacete em forma de aquário, e isso tirava toda a graça do viver. Eu queria poder voltar e olhar para o céu cinza do meu mundo, que seria infinitamente mais belo que os oceanos visto de cima. Eu queria sentir o cheiro da minha morena mais uma vez, e só há um planeta onde isso é possível. Só há um lugar que podemos chamar de “casa”.





