
Fixação
novembro 29, 2014
Presente incômodo
dezembro 4, 2014A pétala vermelha caiu no meio da rua e ninguém viu. Integrava um imenso buquê de rosas carregado por um amante apressado de sorriso eminente.
Era um imenso buquê de rosas vermelhas que sem dúvida seria entregue a um grande amor. Quem, não sei. Nem eu, nem a pétala que ficou no meio da rua para ser pisoteada, levada a algum bueiro pela enxurrada ou recolhida por um pássaro a enfeitar seu ninho.
A pétala agora teria que aprender a existir só.
Um buquê pode ser a paixão, um pedido de desculpas. O motivo é o que vai definir o tempo que essas flores agonizantes irão sobreviver dentro de um jarro d’água. O fim é sempre o mesmo: o lixo.
flores
recém colhidas
nunca sabem
pr’onde vão
sequer
s’importam
Há sempre buquês secos em meio a restos de comida e fraldas sujas nos caminhões de lixo. Entre a infinidade de cheiros, o de laranja podre é o que grita. Diferentemente das rosas mortas, que nunca parecem ter o que contar.
Talvez seja esse o motivo para a fuga da pétala: a um passo do grande amor, não aceitou ser coadjuvante em uma história que não seria a sua. Jamais desperdiçaria sua existência como símbolo efêmero de um capítulo que sequer se importaria com a sua vida.
Ao pular do imenso buquê, mergulhou em um mundo que lhe engoliria. Ele sempre nos engole. Talvez o que não soubesse é que a vontade da morte se alimenta da solidão.
Diluiu-se no vazio e sequer pelo vento foi levada. Caiu com a leveza e as pequenas curvas silenciosas que pétalas e folhas desenham no ar-de-encontro-ao-chão. As rosas submissas seguiram em busca do grande amor e eu atravessei a rua.
Quando olhei para trás, a pétala desgarrada não estava mais lá. Talvez houvesse grudado na sola de algum sapato apático, que lhe esmagaria às migalhas e a largaria por aí. Talvez estivesse em um ninho com dois ou três ovinhos que chocariam em alguns dias. Talvez jamais tenha existido. Assim como eu, que ninguém na rua viu, sequer percebeu que desapareci.
Feliz da pétala, que não precisou aprender a existir só.
por Rafael
ilustração: Caco





