
Agora São Só Fantasmas
fevereiro 5, 2015
Gente que canta quando bebe
fevereiro 9, 2015para Julio Cortázar
Ontem cortei uma palavra ao meio.
No canto da página ela sangrava abundantemente, mas a tempo estanquei o ferimento
com a alocação de outro termo, formando assim uma nova palavra.
No começo houve um choque natural de egos, ainda não inteiramente resolvido.Hoje rompi a ordem de duas frases e alterei períodos incompletos.
Na desordem de minhas sentenças tudo parece movediço e sem sentido.
Revi ritmos, desloquei termos, recompus estruturas.
Fiz pausas para que respirassem as palavras e se dispusessem a caminhar junto às linhas.A cada golpe de minha pena, elas transpiravam, e podia ouvir, bem próximo
da superfície do papel, os sons agonizantes que emitiam.
da superfície do papel, os sons agonizantes que emitiam.
À medida em que consegui reuni-las em um conjunto pretensamente harmonioso, percebi com assombro,
sempre que passava em revista o pequeno caderno onde as guardava,
que as palavras e as sílabas, rebelde e livremente, se associavam sob outras formas.
Isso se verificou há duas semanas e novamente hoje à tarde.
Posso garantir aos senhores que estou com receio de perder o controle sobre minha obra
e a consequente autoria daquilo que luto para construir: a saber, uma estrutura coerente
no interior da qual as unidades mínimas permaneçam nos lugares onde as coloquei.Começo, portanto, a perder a própria fé em domá-las pois sei que quando adormeço elas
e a consequente autoria daquilo que luto para construir: a saber, uma estrutura coerente
no interior da qual as unidades mínimas permaneçam nos lugares onde as coloquei.Começo, portanto, a perder a própria fé em domá-las pois sei que quando adormeço elas
tramam entre si novas articulações, novos arranjos, alterando por completo as
ideias que tanto tenho me empenhado em fazer vir à luz.
ideias que tanto tenho me empenhado em fazer vir à luz.
Rodrigo Jardim






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Fudido!