
E o que você fez?
dezembro 22, 2014
A Rebelião
fevereiro 7, 2015Ademir chega na empresa, bate seu ponto e vai direto ao refeitório, aproveitar seus últimos vinte minutos pré-expediente. Como fez ontem. Na semana passada. Como há 15 anos vem fazendo. Sempre foi um homem de hábitos rígidos. E não por acaso, espera o mesmo das pessoas com quem trabalha, sendo seus colegas ou seus clientes. Infelizmente essa expectativa nem sempre é cumprida. Ser motorista do rabecão do IML está longe de ser seu emprego dos sonhos, mas paga as contas. Mais importante que isso, as paga em dia.
Seus olhos, que o fogo há de queimar, já viram de tudo. Tudo mesmo. Se pegou milhares de vezes pensando em seu corpo morto, numa maca fria, zanzando de um lado pra outro. Do pó viemos e ao pó voltaremos. Ser enterrado não é uma opção. Sua mulher prometeu lhe cremar quando sua hora chegar. Teve que insistir, o assunto a perturba bastante.
Quando as pessoas morrem, um pouco de história fica ali, junto ao cadáver. E não existe nada mais frágil que ter estampado em seu rosto o momento da última derrota. O último fracasso, com o qual não se pode lidar. Que tudo se desintegre de uma vez. As próprias lembranças também irão em breve, o tempo há de superar tudo. Ele mesmo, já quase esqueceu do rosto da própria mãe. Morreu quando ele ainda era menino. Dela só sobrou uma foto, que os anos e sua carteira fizeram questão de borrar. Jogou a foto fora, aquela coisa desfigurada não era sua mãe.
À noite, sonha com uma bola de fogo dizimando a vida na terra. Tantos fracassos, tanta fragilidade. Ninguém mais precisa ser uma foto borrada em uma carteira. Ninguém precisa ser mais nada. Todo mundo já pode parar de tentar. Ele mesmo já desistiu. Ser um corpo sem vida o incomoda.
Gabriel Protski





