
Pequeninha
fevereiro 12, 2015
Réstia
fevereiro 19, 2015Deitada de lado, com a outra metade da cama de casal vazia, ela ouve um barulho. Devia ser o som dele chegando tarde do trabalho, como sempre. Abre os olhos como quem puxa uma persiana, experimentando a luz pouco a pouco. Havia se deitado há horas, mas sem dormir.
Como o primeiro dominó de uma grande fileira, o barulho dispara uma sequência de sons. Ela ouve a porta do apartamento ser fechada e, logo depois, a da geladeira ser aberta. Com as prateleiras sem novidades, ele decide jantar um macarrão qualquer e tomar um suco. A porta da geladeira se fecha.
Ela se lembra que é quarta-feira, quase quinta. O que significa que não tem suco pronto e ele tem que fazer. Esperando a próxima sequência, pensa em como seria bom um apartamento maior, em que o quarto não fosse assombrado pelos ecos da cozinha.
Ouve louças batendo, provavelmente ele pescando a jarra de dentro do armário. A torneira é aberta, deixando a água cair num recipiente de vidro. O som muda com a água caindo no fundo de uma panela.
O acendedor automático faz tec tec tec e uma chama ganha vida. A mulher a imagina azul com toques de vermelho. A imagem é apagada pelo barulho da panela sendo colocada sobre o fogo.
O silêncio de alguns segundos denuncia o tímido pacote de suco em pó sendo aberto e o conteúdo sendo despejado na jarra. Segundos depois, a colher de metal bate nas bordas de vidro, cantando em tom agudo.
O som da água borbulhando fica mais alto. A embalagem do macarrão sussurra com voz de plástico e a massa seca desce na água quente sem fazer barulho.
Ela fecha os olhos por três minutos, tentando dormir durante o tempo do miojo. Na cozinha, o copo de vidro levanta e desce sobre o tampo de madeira, martelando um gole de cada vez.
O som da chama morre, dando lugar ao de panela, prato e talheres.
Ela ouve uma cadeira sendo arrastada sobre o chão, seguida pelas assopradas que acompanham as primeiras garfadas do macarrão ainda quente.
Quando começaram a morar juntos, ela odiava essa rotina. Não conseguia dormir com tantos movimentos pela casa. Hoje não consegue dormir sem.
Por isso, imagina todos os sons, barulhos e detalhes de quando eram casados. Até que finalmente consegue dormir, sonhando com ele ainda ao seu lado.
Celso Alves






1 Comment
Pude escutar cada som que esse moço fez. Lindo, Celso!