
Trinta reais
fevereiro 21, 2015
O afogar da vida
fevereiro 26, 2015Estávamos eu e um amigo sentados na calçada, na frente de um boteco qualquer da região boêmia da cidade. Um grandão, de regata branca e boné rosa, veio vindo em nossa direção – veio e me deu uma bica bem no peito. A mulher que estava com ele gritou Não, porra! Não é esse, porra!, ela gritou mais alto. Levantei e o grandão tava com a cara toda contraída, uma cara de cu bem diferente da cara de machinho que fez quando veio na minha direção me bater à toa. Desculpa, mano, ele falou, e foi só o tempo de que eu precisava pra dar duas na fuça do otário. Dois socos na cara e um pisão no joelho. Meio de lado, no joelho. Os dois socos foram herança dos tempos de boxe, acho, e o chute foi intuição pura. No chute eu senti o joelho do idiota estralar e ele desmontou na hora. O rosto sangrando pelo nariz. A mina começou a gritar, Ahh!, ela gritava, O que você fez, seu filho da puta?, ela perguntou gritando ainda mais. Mandei à merda, sentei de novo e tentei relaxar. Meu amigo que tava comigo me olhou assustado, Mano! Que é isso?, ele perguntou, e eu respondi com outra pergunta. Que merda, né?, e aproveitei pra referenciar Racionais, pra tentar fazer uma piada, e falei Mano, não devo, não temo – me dá meu copo e já era.
Eu nunca tinha cegado de raiva. Nunca tinha saído no braço na rua. Em minha defesa, eu também nunca tinha levado um chute por motivo nenhum. A mina pegou um celular e começou a telefonar pra alguém e eu fiquei pensando que se ela estivesse ligando pra polícia eu deveria sair correndo. Mas não. Eu fui agredido. Eu tinha testemunhas. Não devia nada pra lei, era legítima defesa. Resolvi continuar sentado. Acontece que, em vez de ligar pra polícia, a mulher começou a falar Oi, Marcos. Marcos, ajuda a gente, cara. Por favor. Um idiota quebrou o Zezinho aqui, na frente daquele boteco de playboy que a gente veio terça. Vem ajudar, por favor, ela finalizou, e foi só depois de quinze minutos que eu imaginei o tipo de ajuda que viria com aquele tal de Marcos. Resolvi correr mais do que se ela tivesse ligado pra polícia. Só avisei meu amigo que Talvez fosse uma boa eu correr, e corri. Corri uma, duas, três quadras. Na quarta, um Corsa prata tunado – lembro bem do neon roxo embaixo – subiu na calçada pra me pegar. Apaguei.
Meu amigo disse que o mesmo Corsa passou depois pra pegar o tal Zezinho e levar pro hospital. Por mais foda que fosse a lesão do joelho dele, não deve ter sido pior que minha cervical quebrada.
Nunca mais corri.
por Rômulo Candal
Fotografia: “Curitiba @ Night 13”, por Eugeni Dodonov./cc





