
Não corro mais
fevereiro 23, 2015
Sem água, sem gelo
fevereiro 28, 2015A primeira lembrança de Abel era assombrosa como a fome que passara a maior parte de sua vida. Uma noite de tempestade em que acordou com o barulho das trovoadas que balançavam o casebre de barro. A cama já molhada com a humilhação do medo, e o chão forrado por uma fina camada de água que invadia por debaixo da porta. Levantou e correu para o cômodo onde seus avós dormiam, sem se preocupar com o sono dos primos adormecidos ao lado. Branca despertou rapidamente, abraçou o garoto com a ternura da avó dedicada que era, e correu para acordar os outros. Camilo despertou em seguida, e no momento em que pôs os pés no chão em busca do chinelinho de pano, sabia que precisavam agir rápido, lembrando da tempestade de sua infância. Correu para tentar tirar a água e salvar a miséria que os abrigava. O vento penetrava pelas frestas da casa e gelava a espinha, derrubava as panelas vazias e apagava o fogo de pouca lenha. Vó Branca abraçou os netos encostados em um canto da casa, com a água pelos tornozelos e a oração na boca. Valei-me, Nossa Senhora! Mais um raio, as crianças gritam e o teto desaba. Adeus, vô Camilo.
André Petrini
Foto: ninafreitas





