
Sem água, sem gelo
fevereiro 28, 2015
Pra dar valor
março 7, 2015A calma já não pertence mais ao vento. O ímpeto da juventude precisa ser contido. E quando é vontade da natureza, coisas horríveis acontecem.
No sofá da sala, mantenho a tevê desligada. Mais uma vez estou hipnotizado pelos ponteiros do relógio da parede. Não sei quanto tempo já perdi fazendo isso. O curioso é pensar que existe a hipótese de se calcular algo tão inútil. Segundos, minutos, horas, dias, milênios. Gramas, litros, metros, decibéis, pontos na carteira. Quase tudo dá para calcular. E eu não quero saber de quase nada.
Às vezes fico pensando em medidas para coisas que ainda não calculamos. Como nossa vivência. É muito pobre usar como base apenas os anos vividos, e os ponteiros do relógio hão de concordar comigo. Calculo minha vivência em fotografias mentais de lugares em que estive. Em especial os lugares altos. A imensidão verde que o Pico da Neblina me apresentou. A primeira vez em que vi as nuvens de cima para baixo. A cidade e todos os seus carros vistos do trigésimo andar, na minha sexta entrevista de emprego. A vista que a gente tinha do nosso apartamento. Nem era tão alto, mas era linda, pelo que me lembro.
Oitavo andar, último andar do único prédio da quadra. Todo vento encanava justo ali. E a gente sempre brincava que ele chiava o seu nome. Vi passar toda minha vida que nunca existiu naquele lugar. Vivi todos os planos que a gente fez, e só fez. Ainda não descobriram também, como se calcula o tamanho de uma saudade. Não gosto de pensar nisso, nem de pensar em você. Tanto quanto gosto da vista do meu novo apartamento, no décimo quinto andar, de frente para outro prédio.
Uma tempestade se aproxima, não quero fechar a janela. Antes de chover, sempre venta muito. E o vento sempre sussurra o seu nome.
Gabriel Protski






6 Comments
Olhe para a janela agora e veja a chuva com outros olhos.
Oitavo Andar!
Sublime!
🙂
O vento sempre sussurra o que é difícil de esquecer. É como se ele só existisse para lembrar que não temos controle de tudo. É como se ele existisse para lembrar que temos controle de quase nada. Bonito texto! 🙂
Bonito foi esse comentário. Obrigado pelo acréscimo de poesia!