
Escala de Beaufort
março 5, 2015
Charles Darwin nas Ilhas Galápagos
março 9, 2015Um mendigo com uma garrafa de pinga barata se aproximou.
– Tem horas?
Eu olhei de canto de olho, ele estava acompanhado de uma mulher tão suja quanto ele, que não tirava os olhos do chão.
– Não tenho horas.
Ele pareceu incomodado com minha resposta. Provavelmente pensou que eu falava daquele jeito porque ele era mendigo, e não tinha dentes de ouro, ou melhor, não tinha dentes. E que eu era mais um desses burgueses que está pouco se lixando que pessoas morrem de fome na rua. O coitado nem parou pra pensar que não. Não era ele. Eu trato todo mundo assim. Eu tenho uma capacidade incrível que desenvolvi nos últimos anos. Sei quando estão mentindo pra mim, sei a intenção das pessoas.
Não tardou. O canalha me vem com o jargão. – Aí coroa, é um assalto. Tirando uma faca de sua manga preta de sujeira.
Eu dei uma cusparada no chão. A melhor maneira de demonstrar desprezo. E respondi com outro jargão. – Perdeu playboy. Colocando a automática .380 na cara do safado. – Tira tudo que você ta vestindo e joga aí nessa lata de lixo com o emblema da prefeitura. “Cidade ecológica”. O sacana nem sabia o que fazer, quando ele começou a chorar eu titubeei, e pra ter certeza que minha consciência num ia me atrapalhar eu meti uma coronhada na cabeça da mulher.
Agora num era só o olhar. O focinho dela tava no chão.
O cara começou a se despir todo e colocar as roupas na lata de lixo. As cinco da manhã é difícil passar qualquer mané pra atrapalhar minhas brincadeiras. Depois eu me aproximei do tal lixo. Acendi um cigarro e derramei o resto do fluido de isqueiro que carregava em cima da roupa do infeliz. Ateei fogo.
– Agora bacana. Se aquece aí nessa fogueira, ou arranja outro trouxa pra amedrontar com essa faca.
De saída. No fundo da consciência eu sabia. Você tem que tirar tudo de uma pessoa pra ela dar valor no que tem.
por Raphael D Farias Moraes
ilustração: Alf (vulgo Seu Antônio)





