
Gente que trabalha em feriado
abril 6, 2015
Boom Imobiliário
abril 11, 2015Treze anos depois, não estava mais ali. Pela primeira vez, novas linhas seriam escritas sem a sua companhia. No começo foi bom, a liberdade, depois assustador, a solidão, então a fuga desesperada. Agora uma leve saudade, daquelas que quase sorrio ao lembrar.
Sou do tipo perseguido por lembranças, que nunca soube se livrar da saudade para viver em paz e tenho pra mim que jamais aprenderei. Saudade é a memória da alma, que sempre traz-consigo aquilo que um dia amou.
Treze anos depois, abri mão da lapiseira que me acompanhou desde os últimos anos de escola. Amores, muitos não correspondidos, imortalizados a grafite, que apagam longe dos meus olhos. De cartas a poemas mancos, jamais soube.
De tempos em tempos a perdia e o mundo deixava de ser. O ar faltava, o sono despertava, o medo gritava. Tudo perdia a cor até que a reencontrasse. E a gente sempre se reencontrava. Fosse no fundo de uma bolsa bagunçada, fosse no buraco negro das gavetas. O caos sempre insistiu em nos separar.
Vivia uma loucura que era metade amor e outra possessividade. A combinação confusa e explosiva que tanto alimenta páginas policiais e músicas de gosto questionável.
Mas agora, treze anos depois, decidi que era chegada a nossa hora. Deixaríamos de ser um só. Inseparáveis. Precisávamos de novos traços.
Desde a última vez em que a derrubei no chão, a ponta mudou. Torta, vivia a quebrar grafites. Por vezes praguejava, maldizia a sorte que havia me abandonado.
E por isso a deixei lá, treze anos depois, sobre o mesmo banco da praça em que escrevi e reescrevi linhas de possíveis vidas para mim, para nós. Saí sem saber quem a acolheu, ou se foi engolida pela solidão. Um golpe que abreviou o fim.
Dia desses ouvi dizerem que o grande problema desses nossos tempos é que ninguém tem paciência para consertar as coisas. Trocamos tudo sempre, sem saber aonde chegar.
Mas…
Decidi mudar. Erguer os olhos para além do horizonte que já não buscávamos.
Assumo a nostalgia. O que era peso agora é parte de mim e pude transformar a gota gelada da saudade em estopim para o próximo mergulho, novos sorrisos, novas linhas.
Enfim livre pra buscar o meu pedaço do bolo da festa.
Uma alegria se desenha a cada passo rumo a um horizonte que já não me interessa se um dia será alcançado. No fundo, o que importa é o que desejamos. Se buscamos com a alma, já estamos no caminho.
no bolso, os
últimos ver-
sos falhados:
do passado
a lembrança
feliz-
mente
a vida
não tem
volta.
por Rafael Antunes
Ilustração: Nina Zambiassi





