
Signos
abril 16, 2015
Devoção
abril 27, 2015Parecia que o novo quarto seria um lar, mas ainda há fantasmas e sombras que me acompanham a cada ida. Esses fantasmas não deixam nem mesmo uma colmeia se transformar em lar. São caligrafias em endereços, bilhetes mínimos de textos que não são meus, arrependo-me de encontra-los, pedaços de lembranças espalhados pelo chão ao qual não pertenço, como cacos de vidro que ao perfurar meus pés, demoram a ser descobertos e infiltram meu sangue com memórias. Memórias de algo que nunca vi, mas imagino vozes e risadas e choros. Risadas de um tempo em que eu não havia ainda nascido para este lugar.
As luzes que entram pela janela fazem malabarismos irreais nesse solo, faíscas novas de esperanças velhas. Estou presa em escritos alheios que inevitavelmente me consomem mesmo fingindo que eles não existem mais. Ou eu desconheço novas criações. Colocarei carpetes novos e coloridos, ou cobrirei o quarto todo com tapetes variados. Quem sabe daqui um tempo.
O texto sempre jogado no chão do seu quarto, eu o li e reli tantas vezes, contei letra por letra, palavra por palavra, sabia exatamente cada espaço, cada vírgula. Coloquei-o embaixo do braço, carreguei-o como se fosse minha própria lei, minha bíblia, meu livro sagrado. Quando meus olhos finalmente devoraram os resquícios de vida, eu o queimei, mas suas linhas continuaram em meu olhar vazio, as palavras ecoaram em meus ouvidos, marcaram minha pele como tatuagens. Sempre me vem esse devaneio quando repenso a ideia desse quarto como um lar. Essas palavras cravadas em mim se juntam com as lembranças espalhadas nesse chão, nesse vazio gelado onde pisamos hoje. Quem sabe um aquecedor não resolveria? Quem sabe daqui um tempo esse campo seja mais propício a pés descalços.
Como fugir? Para onde fugir? Onde encontrar novos tacos para substituir? A história carregada no barco das memórias se juntou com a história desse novo lugar, que mal conhecemos, mas que já está repleto de tudo que trouxemos. Em partes, o que trouxemos pertence a outra pessoa, o que tenho de meu é mínimo, talvez seja por isso que minhas entranhas ficam cheias do fantasma do que restou. Preciso trazer mais bagagem, tirar da rua o que tenho e abrigar aqui.
É cansativo viver em meio às sombras, é frio e solitário. É cansativo procurar sempre por um lar, pelo calor do sol, pelo calor de lembranças frescas criadas e recriadas. O sol amanhã vem, com ele a vaga vontade de que as sombras se dissipem em pontos de luz, caligrafias mais bonitas, textos mais meus. Quem sabe daqui um tempo. Eu acredito e prometo: quem sabe? Eu sei.





