
Ao fim de quatro quadras
abril 13, 2015
Março
abril 18, 2015Arregaçado. Foi assim que achei meu carro, mais uma vez. Arregaçado. Senti o frio na espinha quando apertei o botão do alarme e os faróis não acenderam com uma breve buzina, como manda o fabricante. Teria esquecido de ativar quando fechei a porta? Estou ficando velho, e não seria a primeira vez. Às vezes esqueço. Mas também não seria a primeira a encontrar o carro aberto. A noite escurecia a vista para a ventarola do passageiro, aquele cantinho que parece ter sido pensado para a bandidagem. Puxei a alavanca, abri a porta do motorista, e a desgraça se confirmou. Os papéis todos revoltados pelos bancos, o rádio arrancado para fora com os cabos estripados, o porta-luvas aberto com suas partes à mostra. Confiro algumas coisas e noto que nada foi levado de fato. A jaqueta, o óculos, a chave de casa, está tudo lá. Só pode ser um aviso. Eles sabem, pensei.
O velho jeito da máfia de dizer que você pediu o macarrão com o molho errado. Sempre odiei este tipo de simbologias. Uma vez terminei um namoro porque a moça me perguntou qual era o meu signo. Quando falei que não poderia continuar com aquilo, ela gritou “típico de Touro” entre uma ofensa e outra. Não fosse por ter acertado, talvez eu nunca mais lembrasse da Bárbara.
Eu já conhecia a sensação de ser roubado, e acho que todos devem estar preparados para passar por isso em alguma fase da vida, tal qual as espinhas. Não me encontraram na juventude, mas pipocaram na idade. Nenhum dos dois deixou marcas, mas também não facilitaram o já penoso processo de sair de casa.
Mas o vazio de hoje era diferente. Como um otimista incurável, sempre achei que os roubos levavam aquilo que eu não precisava mais. Tiravam de mim aquilo que não me faria falta, e isso sempre se provou verdade. Desta vez, fui desapropriado de minha própria segurança. Meu bem-estar. Minha integridade. E tudo por fazer algumas perguntas. Tudo por uma matéria na área policial de um jornal sangrento. Não tenho mais idade para isso. Eu sempre odiei este tipo de simbologias.
André Petrini
Foto: Szymon Kochanski





