
Felicidade não existe
maio 16, 2015
Ensaio Político: Ofício 1º à Democracia
maio 24, 2015Quando a luz mais forte se apaga, percebemos a intensidade e o brilho de todas as luzes menores.
Jonas acordou mais cedo que o habitual, antes do sol, da sua janela viu a luz opaca dos postes competirem com tudo que insistia em ser noite. Saiu de casa sem nem lavar o rosto, sentiu o frio da madrugada arder os ossos de suas mãos, cada dia mais errantes. Atentou seus olhos cansados para todos os detalhes da rua, cada pedacinho de calçada tinha um pouco da sua história. Morador do bairro há setenta anos, sempre achou que merecia uma estátua sua na principal praça da região, onde tem duas quadras de futebol. Fez muito por muita gente, hoje não faz quase nada pra ninguém.
Somos o que conseguimos e o que deixamos de fazer, um rizoma embaraçado de sensações.
As contas acumularam na proporção de suas frustrações, o tempo levou pra longe quase tudo o que lhe pertencia. Já não consegue nem mais sentir saudades, até as lembranças lhe foram tomadas aos poucos. O corpo trouxe sua alma pesada até a praça, agora tudo o que restou está no mesmo lugar. Escolheu um lugar onde sua estátua ficaria visível em todos os ângulos da praça. Queria ser eternizado em pé, com o peito estufado, foi se o tempo disso. Na manhã seguinte o jornal publicou uma foto sua, deitado no meio da praça. “Idoso não identificado é encontrado sem vida por razões desconhecidas.”
Gabriel Protski





