
Há quem crie Betinhos
maio 4, 2015
Sob o assoalho
maio 9, 2015Os elefantes haviam tomado conta da noite e cercavam o prédio. Nossa esperança era de que eles não soubessem subir escadas. Uma curiosidade que jamais nos havia acossado aqui, longe de onde elefantes vivem livres de degraus.
Encolhidos no último andar, víamos tudo através de uma janelinha-minúscula na qual mal cabíamos. O que está acontecendo?, que barulho foi esse?, eram perguntas sem respostas. Assistíamos na esperança de que a vida explicasse, mas ela nunca se explica.
Tudo era destruição e desesperança. Os elefantes corriam em direções aleatórias e o fim era eminente.
Lá de cima, tudo vira nada.
Sob a fúria, tudo é pólvora.
As explosões são inevitáveis e o clarão do que se vai iluminava o pavor dos seus olhos. Um desespero de testemunhar a vida que se esvai.
Estávamos rodeados por um mundo que já não era.
Os elefantes eram três, ou mais, ou um que nos rodeava cada vez mais rápido, lá embaixo, alimentado por uma inquietação que talvez fosse a nossa.
No brilho inconstante dos seus olhos, à mercê dos clarões de fora, o mundo ruía.
Fecho os olhos e lembro do dia em que almoçávamos e seu telefone tocou, arrancando metade da sua vida. Era a primeira vez que o via assim, humano.
Na hora, nada me restou além de dois tapas secos nas suas costas e um “Estou aqui para o que precisar”.
Diante de mim, envelheceu uma vida inteira e eu não soube o que ser. Apenas sobrevivi diante da sua sobrevivência. Sobrevivemos.
Nosso nós nasceu no dia em que sua mãe morreu. Não a conheci além das suas lembranças que me levam até ela. Além do medo dos elefantes que podem estar lá fora.
Entre um relampejo e outro, a escuridão me mostra que a construção sem planos havia chegado ao fim. Era hora de descer.
Abandonar a proteção do último andar daquele prédio e encarar os elefantes. Já não nos importaria se eles saberiam subir escadas, mas se conseguíamos descê-las.
Os elefantes sempre estiveram ali. A novidade era o medo.
Foi entre eles que percebi o quanto agem orquestrados por nossos pensamentos. Mas isso não pude lhe contar.
Somente aqui, centenas de degraus e lágrimas abaixo, percebo: diante dos elefantes, você sequer tentou viver o mundo além daquela janelinha-minúscula.
texto: Rafael Antunes
ilustração: Caroline Rehbein






2 Comments
uau
Meu Deus, cara