
Mediunidade
maio 25, 2015
Pássaros
maio 30, 2015Desde pequeno, deu no meu filho caçula de começar a brincar com as nuvens. Sabe como é, ele não tinha muito mais com o que brincar. Paus e pedras, minhas ferramentas talvez. Mas aquilo não era brinquedo, eu lhe dizia. Vinha ele todo faceiro manejar a enxada para imitar o pai, e eu o mandava embora.
As nuvens sempre foram boas para mim, mas não mais do que sombra para aliviar o sol escaldante sobre minha cabeça, ou sinais de que o tempo iria virar. Já para meu filho, foram mais do que isso. “Olha, pai, é um navio!”, “Olha, uma onça!”. Animais, objetos, criaturas. Transformava a massa branca e disforme em todo tipo de coisa que sua imaginação permitisse. Até que, um dia, ele me chamou e disse: “Olha, pai, é o vovô!”.
Demorei-me a olhar. Meu pai me ensinara a manter a cabeça baixa, a reparar apenas nas formas da terra. Sólida, firme, dali vinham nossas raízes, nosso sustento. Hoje, sou-lhe grato por ter me transformado em um homem trabalhador.
O guri insistiu e eu olhei para o alto, incrédulo. E não é que o velho estava lá? A mesma cabeça achatada com orelhas enormes, dessas que os anos só fazem questão de aumentar. O velho estava lá. Agora livre, leve, no meio daquele céuzão azul, segurando o sol na própria nuca para nos dar um pouco de sombra. O velho continuava a olhar para o chão.
“Pai, um dia quero tocar nas nuvens”, disse-me o guri.
“Não deseje tocá-las, filho. Deseje ser uma delas”.





