
Até que surgiram os espinhos
junho 1, 2015
Pai
junho 11, 2015
Ela costumava pensar que perder tudo talvez a acordasse, que a fizesse consertar a vida, tomar jeito. Estava sempre no limiar do aceitável, injetando química barata nas veias, compartilhando seu corpo com o máximo de desconhecidos. Queria se abrir completamente ao mundo. Resolveu intensificar seu projeto e foi morar na rua por uma semana.
Havia perdido tudo, por sete dias. Começou a sentir que chegara perto do tal limite. Comia do lixo, transava nos becos e fumava craque. Percebeu que talvez mesmo no limiar do fim, do nada, do não tem volta, não aconteceria uma espécie de desespero que a fizesse mudar para melhor. Entendeu que acabaram as desculpas. Podia ter tudo ou podia ter nada, seria a mesma merda.
Sentiu-se completamente solta: sem ninguém, sem história, só presente. Não tinha medo. Não por não ter nada a perder, mas simplesmente por esse conceito não lhe cabia mais. Só passou a sentir um fluxo, uma certa paz mórbida, uma vontade de apagar todas as luzes da rua às 00:53 e caminhar em direção a qualquer lugar.
Pensou: “Todos os locais são e serão assustadores. Mas não pra mim. Não há nada pra mim aqui fora e em mim não há nada que interesse a ninguém.”
Começou sua verdadeira caminhada. Sem rumo, apenas um revólver 38 na mão.
Henrique Schaefer





