
A vida moderna é uma guerra
junho 22, 2015
Um sorriso de poucos dentes
junho 29, 2015É verdade quando dizem que porteiro precisar ter o saco do tamanho de um bonde. Quando o tempo vira, então, nem se fala. Hoje estava um frio lazarento, e aqui no edifício onde trabalho é claro que o assunto não foi outro.
“Que frio, né, seu Ademir?” “Ô seu Ademir, ligaram o freezer lá fora, é?” “Ademir do céu, dizem que amanhã vai fazer dois graus! Vai até gear!”. Haja saco.
No entanto, é claro que eu respondi a todos com muita cortesia. Trabalho é assim, a gente tem que cumprir certas funções. E uma das funções que se espera de um porteiro é a de cumprimentar e ser simpático com todos.
Porteiro também tem que ter muito o que pensar – pra matar o tempo – e pouco o que falar, ou seja, ser sigiloso. A moça do duzentos e seis, por exemplo, a cada quinze dias sobe com um rapaz diferente. Eu não vejo problema nenhum nisso, cada um sabe o que faz, mas com certeza ela não ia gostar se o namorado dela soubesse. Ou a mulher do quinhentos e um, sempre com uma vontade urgente de ir ao banheiro quando chega em casa. Ela acha que ninguém está olhando, mas com a câmera de vigilância eu sempre flagro ela pulando e dançando de tão apurada enquanto tenta encontrar as chaves na bolsa.
Ah, já ia esquecendo. Nesse frio, porteiro também tem que ter uma outra coisa. Eu carrego comigo um cantil com bebida, pra dar aquela esquentada, sabe? Geralmente levo vodka, mas às vezes coloco conhaque mesmo. Quando a gente está quente por dentro, até aquele ventinho que passa pela fresta da porta deixa de incomodar.
Falando em incomodar, no final da tarde apareceu um mendigo ali no portão, tocando os interfones dos apartamentos. Fui até lá. O coitado enrolado nuns trapos, a pele judiada, o lábio rachado e enfim, não vou descrever mais porque vocês já devem saber como é a aparência de um pobre quando está na fossa.
-O que você quer?- perguntei.
-Ô sinhô, eu perdi minha coberta. Na humildade, tô pedindo alguma ropa ou cobertô.
-Não posso deixar você pedindo aqui. Depois me enchem o saco.
-Ai sinhô, mas tá muito frio!
-Esse prédio inteiro tá com frio, rapá. Vai embora!
Murmurou alguma coisa que não entendi e me mirou com olhar sofrido.
-Vamo, vamo! – insisti – Vou ter que te tirar daí? Cai fora! Rala!
O coitado se foi, devagar, enrolado em seus trapos, para mendigar no próximo edifício. Eu até senti pena de enxotar o miserável, estava um frio do cão. Mas trabalho é assim mesmo, a gente tem que cumprir certas funções.
por Murilo Lense
Ilustração: Eti Pelizzari






4 Comments
Putz! Faz a gente pensar o somos capazes de fazer, sempre com o escudo de que é nossa obrigação funcional, moral, social, etc . Assim afogamos nossa vocação espiritual! Mas trabalho é assim…
É verdade, Jary! Captou bem a essência do texto =)
Esse cara sempre exala meu. Parabéns Murilo.
Obrigado! =)