
Um sorriso de poucos dentes
junho 29, 2015
A quem contar
julho 6, 2015A vida já não era fácil para Valdir antes. Desajeitado, introvertido, “esquisito” para os outros meninos da escola. Nunca era chamado para o futebol nem para lanchar junto no recreio. Também nem queria – seu melhor amigo era o walkman em que os cassetes dos Beatles não paravam de rodar. A primeira infância de Valdir foi complicada. A família nunca passou por problemas financeiros de ordem mais grave, mas sofria de uma desconexão crônica que impedia que os membros se aproximassem ou trocassem afagos e compreensão.
Valdir nunca se sentiu confortável, em nada nem lugar nenhum. Não se sentia confortável em casa, nem na escola. O sofá era frio, os colegas eram frios. Nem o próprio corpo o confortava. Ele não gostava do que via no espelho nem dos movimentos delicados que fazia sem controlar. Não gostava de ser tão diferente.
Na escola todos, sem exceção, o tratavam com desprezo. Mesmo os menos populares se aproveitavam da falta de pertencimento de Valdir e o usavam como escada em situações sociais. “Cê viu o Valdir escorregando? Caiu que nem um saco de batata no chão” virava assunto, e o menino nem tinha de fato escorregado. Ele não ouvia nem ficava sabendo desses boatos, graças aos fones de ouvido. Quando queriam incomodá-lo de forma mais incisiva, a técnica era mais agressiva – diziam “Ô, viado!”, ou “Bichinha!” de bem perto das orelhas, para garantir que Valdir ouviria. Ele ouvia, nesses casos, e só fazia sair de perto e aumentar o volume do walkman.
Virou Bozo no inverno de 1998, aos 10. O frio trouxe uma crise de bronquite, que atacou seu sistema respiratório e acabou com as vias aéreas do menino. De tanto limpar com a manga da blusa o ranho que não parava de escorrer, o nariz ficou assado e vermelho. Além disso, tentava resolver a desidratação dos beiços com lambidas ininterruptas, o que o deixou com os lábios escarlates, quase em carne-viva. Depois de dois dias em casa voltou à escola, e não demorou para que um dos colegas associasse o nariz e boca vermelhos de Valdir à maquiagem de um palhaço e começasse a gritar “Olha, olha a cara do Valdir! Parece o Bozo!” e todos explodirem em gargalhadas e essas gargalhadas ele ouvia através dos fones de ouvido.
Valdir correu até sua casa, sem mochila nem nada. Alegou uma recaída da bronquite e chorou tanto que os pais desconfiaram de algo errado, mas nada fizeram, além de enrolar o garoto em uma mantinha de lã e oferecer-lhe chá de limão com mel, que ele recusou.
A verdade é que o inverno pode ser especialmente cruel com pessoas inseguras.
por Rômulo Candal
Ilustração: Eti Pellizzari






2 Comments
Menino…que texto legal…profundo e suave.Parabéns !!!
Muitíssimo obrigado! 🙂