
Irmão
julho 30, 2015
Sobre Demônios e Amar Você
agosto 8, 2015– Próximo!
– Bom dia.
– Bom dia, senhor. Seu passaporte, por favor.
– Aqui.
– Muito bem, quantos dias pretende ficar em Portugal?
– Três dias.
– Só isso? É muito pouco.
– Queria ficar mais tempo, mas ainda vou à Barcelona.
– Ah! Barcelona é bem melhor.
– Não sei, dizem que aqui é bem bonito.
– É, mas Barcelona é mais. Teu sobrenome é polonês?
– É sim.
– Mas tu tens uma cara de turco.
– Tenho várias ascendências, nenhuma dessa região.
– Mas de polonês tu não tens cara, é descendente de mais o quê?
– Alemães e negros.
– Negros?
– Aham.
– Bom, de europeu tu tens a cor. E de negro, o que tens?
– Sangue?
– Não, tô falando de outra coisa. (As mãos com as palmas viradas uma para a outra, a uma distância de trinta centímetros). Tô falando disso.
– Ah.
– Quanto tens, é assim?
– Bom, não…
– Maior?
– Não, não.
– Assim?
– Menor.
– Isso?
– Um pouco menos.
– E agora?
– Não, maior.
– Desse tamanho?
– Não, foi muito, um pouco menos.
– Isso?
– Isso.
– Acho que é o padrão europeu.
– Poxa.
– Deve ser o padrão na Turquia também.
– Acho que sim.
– Está aqui teu passaporte, boa estadia em Portugal.
– Obrigado.
– Demorou no guichê por que?
– Também não sei. Tô com fome.
– Quer comer alguma coisa aqui mesmo?
– Pode ser. Só um lanche, sei lá, vou ali ver o que tem.
– Bom dia, quero um combo número três e um café.
– Pagamento no cartão ou em dinheiro?
– Cartão.
– Tens um documento, por favor?
– Aqui.
– Engraçado, teu sobrenome é polonês. Mas tu tens uma cara de turco.
Escrito pelo Gabriel Protski
Ilustrado pela Sabrina Gevaerd Montibeller






1 Comment
Parabéns! Literatura tem que trabalhar com as imagens que temos dentro. Vi tudo. Toda a cena.