
Amorabisco
agosto 24, 2015
Sou tão bonito que
agosto 29, 2015Sentada aos primeiros degraus, Bia é a incerteza da volta de Pérsio, que está a vinte metros dali, incapaz de pensar num possível retorno.
Faz sol, mas fosse chuva seria igual, pois o tempo já não é desde que Pérsio entrou carregado por aquele corredor branco que o levou para o longe.
Cotovelos nos joelhos, Bia chora o choro de uma vida que não parece ser. De olhos no chão, olha pra trás.
Bia baixinho lamenta carregar o que fora, sem se libertar para o que teria sido. Sabe que o tempo é implacável com quem não se vive.
Diante das versões que criou para si, já não sabe o que foi, apenas pedaços de si numa fuga sem rumo que a trouxe a estes degraus.
As lágrimas vêm e vão além da tristeza e anunciam a dor eminente n’algum canto.
O vento conduz as folhas, que dançam de encontro ao chão, como não fossem feitas das lágrimas de Bia.
Não é sexta, nem terça. É o dia em que a dor dói o que não se descreve, se sente com pena.
No silêncio, desculpas. Não para si, sequer para Pérsio. São pensamentos de quem se deixa esmagar num abraço de solidão.
Encolhida, Bia se agarra ao que não foi. O remorso toma conta da mesma vida que se encolhe à margem de Pérsio.
Ela está perto, ele não.
Deitado numa cama que não a sua, Pérsio é indiferente à alma que vaza de Bia.
Eles estão a vinte metros e um tempo-que-não-se-deixa-medir um do outro.
É esta a distância que doutor Ulisses caminha sob seu jaleco branco até a alma encolhida lá fora e, como comprimisse passado, presente e futuro n’algumas palavras, diz o que Pérsio será a partir de agora.
Texto: Rafael Antunes
Ilustração: Caroline Rehbein





