
Muß Es Sein
setembro 17, 2015
Pablo
setembro 24, 2015São poucas as ruas que morrem, na verdade quase nenhuma delas. Todas andam sem parar. Há uma mulher caminhando e o vestido dela é vermelho. Anda com um copo na mão.
São alguns campos abertos também. A maioria deles fica ensolarado de tarde. Às vezes tem chuva. Molha o papel e estraga tudo. O telefone fica mudo.
São caminhões barulhentos de madrugada. Acordam a vizinhança toda só para pegar o lixo. Colocam as caixas e os sacos dentro e vão embora.
São três milhões de pessoas juntas e perdidas. Falam línguas ininteligíveis e a maioria está bem longe de casa. Moradias provisórias, empregos temporários e comida apimentada, barata, solitária, porções únicas, sem sal, carne sem gordura, lavada na torneira antes de ir para frigideira.
São hologramas em plena escuridão. Gente nua, dissimulada. Gente desesperada, mas que tenta esconder. Gente elegante, com tudo novo.
São crianças pedindo companhia para brincar. Choram sozinhas todo fim de tarde. Perdem e recuperam a esperança com um estalar de dedos. País estranho. Camisa desabotoada, tênis furado, dois dólares no bolso e isso é tudo. Não se pode ir muito além sem desistir de algumas coisas. Tudo tem preço e você ainda precisa pagar os impostos. Por que não quis ficar? Por que lavou tudo com sangue? Por que não disse nada antes? A noite vem nua, por baixo de um roupão branco. Os olhos não dizem nada, mentem como criança mimada. Ela entra pela porta e pede que eu feche as cortinas, que tranque as janelas – se não os outros, nos prédios vizinhos, podem ver o segredo trazido na bolsa preta. Há uma única luz que ilumina tudo. Um brilho inferior. Por que o caminho errado? Talvez alguém de vocês ai saiba.
São adolescentes que envelheceram tarde.
São todos estranhos, mas se amam, nem que seja por uns instantes.
São preguiçosos e tem medo de escolher. Será que seguirão pelas pedras ou pelo meio da correnteza?
São todos um só e correm em direção ao nada. No fim é consciência se dissolvendo.
Texto: Jadson André
Imagem: Alex Rande






1 Comment
Parabéns Hermano e Alex intrigante a imagem!