
Pesadelo após pesadelo
outubro 30, 2015
Todo peito é mar
novembro 5, 2015O som do carro tirou meu sono. Olhei no relógio: meia noite. Achei que era você chegando em casa bêbado mais uma vez. Queria que fosse, assim eu teria certeza que você veio pra mim e não pra outra. Prefiro você com cheiro de álcool que de puta.
Mas essa noite é dela. Ela, que eu não sei como se chama mas sempre imagino com um nome qualquer, tipo Fernanda ou Cíntia, junto de um apelido tosco – Lábios de Mel ou Hard Candy. E pensar que hoje você é dela e não meu, mas que em outras noites ela não é sua e sim de outro. Que também deve ter um nome comum, como Carlos ou Ricardo. E que hoje não é da puta, mas sim da sua esposa que por conta disso não pode estar com seu amante que aproveitou para ir no cinema com os sobrinhos, que devem ter só apelidos comuns como Bia ou Dedé.
Fecho os olhos já que não ouço mais o barulho do carro e ninguém entrou. Antes de deitar vi o marido da vizinha chegando em casa. Que sorte. Amanhã ele vai ajudar com as crianças antes de ir trabalhar. Já eu, vou tomar café da manhã sozinha ao som da televisão que ligo para fingir que tem alguém assistindo e não justificar o silêncio da casa.
A porta abre. Volto do sono em que estava quase entregue. Já deve ter passado mais de meia hora desde que ouvi o carro. Era você. Com cheiro de puta e álcool. A noite não saiu como planejado. Você fede, mas deita direto na cama. Eu desejo que você se levante e tome um banho, mas em poucos minutos te escuto roncando como se tivesse ali faz tempo. Eu durmo. Agora sei que você está aqui e amanhã terei companhia pro café.
por Lígia Maciel Ferraz.
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fotografia de José Manuel Ríos Valiente





