
Entre pensamentos e a realidade
outubro 5, 2015
Realidade
outubro 16, 2015Texto de Giulia Ceccon e ilustração de Alexandre Cavalheiro – estes prodígios de 14 anos.
Finalmente tinha conseguido escapar daquele inferno que era a casa de Annie, um dos mais chiques bordeis de Paris.
E pensar que anos atrás entrei nessa vida porque achei que seria divertido, um dinheiro fácil. Mas nada dessas coisas substituem quatro anos perdidos, sem ver quem amava e o que acontecia no mundo enquanto eu estava presa.
O rio Sena sempre foi uma de minhas paisagens preferidas. Assim que me libertei não pensei duas vezes antes de ir me sentar em um banco à sua frente. Ao sentar, percebi um mendigo ao meu lado tentando acender uma fogueira para se esquentar. Isso me fez lembrar de como eu fugi da Casa de Annie.
Em uma noite sem muito movimento Marta, uma das garotas da casa, acendia os castiçais quando, sem querer, um cliente bêbado esbarrou nela e derrubou a vela, começando um incêndio. No meio da confusão escapei.
Livre. Com os anos de trabalho, recebi algumas boas gorjetas dos clientes, que sempre carregava comigo dentro do sutiã. Com elas conseguiria voltar para casa.
Mal pude acreditar que estava vendo minha casa de novo; aquele gramado extenso e a casa no final. Continuava a mesma, com a cor amarela e as violetas no jardim. Vi minha mãe colocando a roupa no varal. Corri para abraça-la. Ao apertar-me em seus braços, disse, “Aí está você, Madame Annie vai ficar contente em vê-la novamente.”.
Um baque. Ao abrir meus olhos, vi no lugar de minha mãe um dos capangas do bordel, me levando de volta.
Nunca vou escapar desse inferno!





