
Meia noite
outubro 31, 2015
Dudu
novembro 8, 2015Emagreceu. Arrumou um emprego fixo. Até que ganha bem. Tem um carro. Comprou zero. Conheceu várias gurias bonitas, inteligentes, interessantes. Há quatro anos namora uma delas. Apesar de morarem juntos, só pretendem casar no ano que vem. Pensam em ter filhos. Nunca a traiu. Guarda dinheiro na poupança para quitar a casa própria. Já tem metade do que precisa. Dorme cedo. Evita multidões. Parou de fumar. Só bebe socialmente. Frequenta bons restaurantes. Não tem dívidas, paga tudo à vista. Preserva uns poucos bons amigos. Não reza, mas tenta manter conversas honestas com o que chamam de deus. Aprendeu a se controlar em situações tensas. E a se calar em discussões que levam a lugar nenhum. Visita a mãe todos os finais de semana. Tem um cachorro obeso com o qual precisa caminhar três vezes ao dia. E um gato especialista em espalhar rolos de papel higiênico pela casa. Lê três livros por mês. Um é sempre o mesmo.
O problema é que, volta e meia, o espaço vazio se torna significante e passa a incomodar de novo. Pensa na praia e nele. Nos olhos dele, especificamente. De quem compreendia o mundo. Era capaz de invadir violentamente as almas só com um olhar. Foi o que sentiu naquela noite. Só os dois na areia. Um vento frio e cortante. Começaram a conversa com obviedades. Família, faculdade, planos para o futuro. Listaram preferências pessoais de cinco em cinco, separadas por categorias. De repente, tinham toda uma teoria sobre os sons do silêncio e sobre como os olhos parecem pequenas galáxias que carregamos e alimentamos. Ir embora se tornava cada vez menos uma possibilidade. E os corpos cada vez mais perto. Sentia o coração acelerado. As mãos geladas e suando ao mesmo tempo. Começaram a se tatear, discretamente. Intensamente. Violentamente. Mas não, esses detalhes não…
Liga a TV, passeia distraído pelos canais. Tenta se convencer que nem tudo o lembra, é o que de fato aconteceu. Ou? Cai no sono. Acorda com um beijo na testa. É ela, pedindo para que vá deitar na cama.
Texto: Priscilla Scurupa
Fotografia: W. Keith McManus





