
Fora de jogo
dezembro 7, 2015
Doce Juventude
dezembro 12, 2015O zunido na calçada aquele dia me prendeu. Era manhã, era férias e eu brincava sozinho ao redor da casa sem pisar na terra vermelha do além-calçada. Na imaginação, seria lava. Na realidade, um castigo de mãe, por sujar os tênis ainda brancos. O barulho insistente vinha de baixo, ao lado da janela do quarto de minha avó e parei para encontrá-lo.
Olhei ao redor, pela parede, até que encontrei a abelha moribunda que, costas no chão, zunia insistentemente as asas, presa para sempre ali, desesperada como suplicasse um reencontro com sua rainha.
O ódio precedeu a dó.
Tive raiva porque odiava abelhas durante a infância. Elas estavam por todos os cantos na casa de minha avó e sempre recebia ordens do tipo “fecha o pote que se não junta abelha” ou “tira esse copo daí, antes que encha de abelha”. Sempre uma chatice para qualquer criança. Sem falar na dor da picada, que aprendemos a temer antes mesmo de experimentarmos a primeira.
Mas a infeliz ali, esquecida para sucumbir ao próprio fim, parecia à margem de qualquer justiça que pudesse haver no mundo. Foi então que superei nossas diferenças e dei espaço à generosidade que toda criança traz consigo aos oito de idade (não que àquela época eu soubesse o que é generosidade).
Agachado, estiquei o indicador da mão direita para que a abelha pudesse se prender – e ela veio. Como confiasse sua vida a mim, agarrou-se e subiu, ainda a zunir de costas para o chão.
Eu não sabia o que fazer na sequência, mas estava decidido a ensiná-la a voar novamente. E, como um professor que sabe o que faz, chacoalhei a mão, abrindo um abismo por onde ela caiu de encontro à calçada.
Repetimos o ritual três, quatro vezes, com pequenas evoluções de acordo com meu olhar de professor mirim. Até que ela voou um voo hesitante, é verdade, mas que a levou ao infinito, aonde eu jamais poderia chegar sem asas. A essa altura eu já acreditava que não poderia voar (acho triste que os limites nos sejam ensinados tão cedo). E fiquei ali, olhando-a desaparecer naquele voo desnorteado rumo à eternidade.
De volta à realidade, descobri na ponta do dedo algo ao qual atribuí gratidão, encarei como presente. A pequena abelha havia deixado um tanto de si para trás, ali, cravado na ponta do meu dedo que não tardaria em desencadear toda a dor que a desilusão é capaz de doer.
Texto: Rafael Antunes
Ilustração: Murilo Marcondes





