
Lindinhos
dezembro 3, 2015
Desilusão
dezembro 10, 2015Desde pequeno carregava um silêncio que incomodava quem vivia ao seu redor. As outras crianças era fácil compreender: se resumiam a brincadeiras e perguntas curiosas. Mas ele, não.
Ser avulso, desfamiliarizado, vivia pelos cantos, imerso em algo indecifrável. Enquanto os outros cresciam pra fora, cada vez mais expressivos, ele, autofágico, alimentava-se de mundos que criava para si. Parecia não ver sentido ou ter forças para existir.
O que pensava ele onde habitava? Que provocação o faria sair da inércia? Era pacífico, é verdade. Nunca esboçava sinais de insatisfação, desgosto ou agressividade. Mas era um estranho sobre o qual pouco sabiam. Por isso, tinham receio.
O menino cresceu. Viu-se obrigado a falar mais. Questão de adaptação, aprendeu. Aos poucos foi se abrindo, mostrando-se mais sociável. A sensação que tinha, era de que ia soltando camadas, uma de cada vez.
No começo, tudo correu bem. Uma grande novidade ouvir alguma coisa daquela boca que tão pouco dizia. Era uma voz delicada. Escolhia as palavras com cuidado, como se estivesse praticando uma arte. Às vezes até sorria, ainda que um sorriso tristonho, vazio.
Em algum momento, no entanto, tudo mudou. Diziam que tinha perdido a casca e agora se via em carne viva. Talvez tivesse ido longe demais. Ardia em febre. Passou a proferir palavras duras, verdades insuportáveis. O medo se fez real.
Não compreendiam aqueles pensamentos, aquela concepção sobre as coisas. Não era um estranho no mundo, era um estranho para o mundo. E ter certeza disso foi de uma força aniquiladora para ele.
Voltou a silenciar para não desaparecer. Quando se conhece o fim, quando se sabe que doerá muito mais — por que ir em frente? Que as camadas fossem voltando. Que pudesse, enfim, viver onde jamais deveria ter saído.
Texto: Priscilla Scurupa
Ilustração: José Manuel Hortelano





