
23h59
março 24, 2016
Cruzeiro até o fim da Terra
abril 4, 2016sempre te perdi por um fio
e vi voltar tua dura entrega
tua rochosa doçura
tua instável certeza
depois de tecer em afeto
os fios que detive
na correnteza.
logo eu, que
sem medida sem métrica sem nó
sem vírgula
teci tantos tapetes
fartos, alegres, florais
à orla do abismo
não vi manchetes
nem carnavais
mas eram tantos fios
eram tantas estampas
era um tear de tal modo incessante
que já não havia espaço
na casa
no peito
no tempo
pra recolher as linhas
da tua partida
e tecer o teu regresso
vi você dançar comigo
renascer, brindar à vida
comemorar tanta tapeçaria
e vi teu cada desembarque
dispensar a anestesia
mas se nos falta o bastante
quase só basta um instante
que desaba a travessia
e minhas mãos se cansaram
de tear o teu semblante
e nessa promissora profissão
de melhor costureira
de tapetes de regresso
– a mais dedicada tecelã dos universos –
decidi trocar de ofício e
recolhi-me à infantaria:
fui tecer meu lado inverso.
e se um dia um pirata
descobrir os meus tapetes
numa esquina controversa
vai saber que alguém,
de tanto partir
fez partir-se uma conversa
Carol G





