
Impermanência neon
maio 23, 2016
Yorkshire
junho 17, 2016para o amigo-irmão Saul Machado.
Pela fresta na cortina do banheiro Marcela interrompeu meu banho para dizer que estava de saída, que não poderia me esperar. Sem pensar, respondi que tudo bem, que logo iria também, que nos falaríamos depois e com um beijo desejei bom dia. Saiu e o vapor tomou conta do canto sem ela. Tudo mudou. “Marcela, volta aqui!, Marcela!”.
Ela veio correndo, assustada, e me encontrou em lágrimas.
“O que foi?”, desesperada.
“Eu, eu estou te vendo”, pude enfim dizer.
Num impulso pulou com bolsa e tudo para debaixo da água quente a nos batizar. Era a cena perfeita que tanto buscamos, de uma transa daquelas que esquecemos das horas para dar vida aos desejos. Mas agora nosso presente seria estendido. Sequer cogitei tirar sua roupa já encharcada das nossas lágrimas. Nada seria capaz de existir entre nós dois mergulhados em plenitude.
Com as pontas dos dedos deslizava em seu rosto. Uma Marcela que tanto vivi, desenhei em meus pensamentos, mas que só enxergava através daqueles seis graus negativos de lentes que me traduziam o mundo. A miopia havia sido meu filtro da realidade até a cirurgia da manhã de ontem. E agora éramos eu e ela. Marcela. Era a primeira vez que me era nítida no banho. O rosto que me acalma, que me conduz o hoje para sempre. Ela. Mar-ce-la. A boca que explode no Mar, cicia no cé e escorre a língua no la.
Anos de uma realidade sem contornos e agora abraçado pela sua nitidez.
Durmo em seus traços e volto à infância, quando gostamos que nos contem histórias para dormir, nem pela história em si, mas pelo que sonharemos com elas. E se não sonho, volto sorrir pela manhã, quando a acompanho entre as plantas, a assistir ao crescimento diário que ressignifica a vida em detalhes que nos exercitam a sensibilidade que os dias insistem em calar.
E aqui, acolhidos por um banho que se estende, seguimos.
“Eu ainda não me acostumei a ver você sem óculos”
“Como assim?”
“Nunca tive o hábito de prestar atenção nos seus olhos”, e sorrindo emendou “São azuis na parte de fora e verdes por dentro”.
Sorrimos juntos e nunca mais nos acostumamos.
texto: Rafael Antunes.
ilustração: Carol Rehbein.





