
Soro caseiro
maio 19, 2016
Felicidade enfim
maio 30, 2016Um fim de tarde. Quatro mulheres reunidas em um oásis à beira-mar. Pôr-do-sol ao fundo. A cena beirava o absurdo, de tão bonita.
Jurava que tinha uma foto para comprovar, reafirmar. Nada, nenhum registro. Só a memória. Falha, desconstruída, influenciada. Verdade ou não, era a cena que escolhia revisitar para ocupar os pensamentos.
Quatro mulheres sentadas em círculo, dentro de um oásis inesperado à beira-mar. Afundavam lenta e intensamente as mãos na areia, em ondulações, como que sentindo a vibração e o atrito de cada partícula de rocha desprendida que se movia. Ferindo a superfície intacta de um paraíso temporário.
Aproximou-se. Precisava compartilhar daquela espécie de celebração sem propósito, de arrancar da massa úmida e arenosa, substância. O tempo dilatado. A cena beirava o absurdo, de tão bonita. Horizonte imenso, ondas quebrando, o som do sopro do vento.
Agora eram cinco. Sentadas em um oásis improvável à beira-mar. Encontro de corpos, enquanto os pensamentos iam ao longe. Cada uma em seu universo, sabendo que o instante fugaz daquele poente nunca mais se repetiria.
Intensificavam-se a cada gesto, tateando significados próprios. Sentimentos sobrepondo a linguagem. Momento ínfimo, absurdo. Um vazio de objetivos. Tardassem, dissolviam-se em areia, inundavam-se de oceano, anuviavam-se.
“Vamos plantar bananeiras”, sugeriu, então, uma delas.
Três corpos a postos. Nenhuma parede de apoio para ensaios. Nenhum muro como limitação. Uma mão de cada vez na areia. Uma perna de cada vez ao ar. Instabilidade, deslizes, ajustes. A doçura de não temer as quedas.
Em seguida, equilíbrios momentâneos. Levinhas, pés suspendidos no ar. O mundo visto de outra perspectiva. Sorrisos a explodir dos rostos. Naturais, fluídas. De novo, crianças.
Quem não ousou, por encantamento, ria. Cinco mulheres cintilando em um oásis improvável à beira-mar.
Texto: Priscilla Scurupa
Ilustração: Caroline Rehbein





