
O que aprendemos com dez golpes de estado, censura, tortura e enriquecimento de oligarquias.
março 1, 2018
Futuro do pretérito
março 8, 2018Quando a música parou, o gordo atrás do balcão gritou: “um anjo passou por aqui!”. Todos deram risada, incrédulos de que o fenômeno sobrenatural fosse possível, mas desconfiados pelo som ter parado subitamente: era nítido que o silêncio dos instrumentos e dos microfones não havia sido intencional. Os músicos se olharam com ar de desconfiança, procurando uns nos outros a razão daquela pausa inesperada. Os olhos perdidos nada respondiam. Permaneceram calados até que o baixista foi atrás das caixas de som conferir o que tinha acontecido.
Depois de mexer em algumas conexões, o som voltou e a banda continuou. No lusco-fusco daquele galpão de teto baixo, era quase impossível enxergar quem estava na plateia e, do palco, apenas vultos em contraluz eram reproduzidos. O quarteto continuava a apresentação e o som ficava cada vez mais alto. Em certo momento de intensa emoção, os tímpanos pareciam estar explodindo e todos sentiram muita dor. Após o violento ápice sonoro, ficaram tontos, sentaram no chão e levantaram, taparam as orelhas com as palmas das mãos e com as pontas dos dedos apertavam a cabeça. A qualquer momento, sangue escorreria dos ouvidos.
Desta vez, o baterista foi quem correu com passos inseguros até os plugues e arrancou todos com as últimas forças, então caiu no chão com a mão agarrada aos cabos. Quando o som parou, quase todos estavam permanentemente surdos. Em desespero, caminharam para o jardim e inutilmente faziam pequenos testes para conferir se haviam retomado a audição. Havia esperança de que aquela experiência desastrosa apenas tivesse efeitos colaterais temporários. Mas era em vão. Os que ainda conseguiam ouvir um pouco, eram atormentados por um zumbido agudo e tão constante que desejavam ter ficado completamente surdos.
Deixaram o clube com passos lentos, vagando pelo velho Centro e as ruas de pedra. Fantasmas aterrorizados. “Pegue sua pá e comece a cavar”, gritava o velho gordo suicida que poucos minutos antes estava atrás do balcão. Berrava mesmo sabendo que ninguém poderia compreendê-lo.





