
as formas da burca
março 15, 2018
quando a esmola é demais
abril 3, 2018texto: Rafael Antunes
colagem: Katia Villagra
…
“Hahaha… massa!
mas você tem planos de voltar pra cá?”
“Sim, volto no final do ano. Pode gelar uma cerveja pra mim!
Cara, to indo. Tenho mais duas aulas da pós agora”
“Manda ver! Já coloquei umas garrafas na geladeira 😉 ”
“Que bom falar com você… conversamos depois.
abraço!”
E nunca mais voltou.
Na verdade até voltou, mas nunca mais nos vimos.
Naquelas nossas últimas mensagens no Whatsapp, conversamos com a distração que sempre acompanha os grandes acontecimentos. E assim percebemos em nada que aquela era a nossa despedida.
No final do ano, Eduardo voltou a Curitiba após três anos morando em Buenos Aires. Formado em Belas Artes, viveria enfim o que acreditava, longe dos escritórios que lhe confinavam os sonhos.
Por descuido ou abandono, nunca chegamos a combinar o reencontro que tanto prometemos. Foram três meses adiando, até a noite de ontem.
Era a primeira vez que meu telefone descrevia uma ligação como “Eduardo Curitiba”. Atendi e o mundo ruiu.
Passamos uma vida nos preparando para as provas que os dias nos impõem, mas para grande parte destes desafios não há preparo, apenas esperanças de superação.
Do outro lado da ligação, não-sei-quem gritava entre prantos que, caralho, o Du morreu!
Fato é que Eduardo chegou em casa no final da tarde de ontem sufocado por algo que jamais saberemos o quê. Provavelmente manteve o hábito de se sentar ao sofá para tirar seus tênis cansados, e uma vez mais se espalhar entre seus livros à estante. Talvez duas ou três cervejas. Não sei.
Há algum tempo já não sabia das leituras de Edu. Um distanciamento de três anos e um não-sei-quanto de vida sequer compartilhada.
Nenhum,
Nada,
Ninguém.
Bilhete algum explicou a morte e todos temos ideia sequer de como andava a vida de Edu após o retorno, que sempre só. Era a ausência de nós.
Edu agora é ontem. Perdeu-se do presente, a via que nos conduz do passado ao futuro.
E cá seguimos ensimesmados, desapercebendo que um tanto de nós se esvai a cada descontinuidade do que compartilhamos por aí. Pouco a pouco deixamos de ser presentes.





